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Críticas a Axl Rose e o Preconceito com o Envelhecimento Vocal

A voz e o tempo...

Críticas a Axl Rose e o Preconceito com o Envelhecimento Vocal
Paul Rovere/Getty Images

Nos últimos anos, vídeos de apresentações recentes de Axl Rose, lendário vocalista do Guns N’ Roses, viralizaram nas redes sociais, quase sempre acompanhados de comentários ácidos sobre sua voz. Muitos fãs brasileiros — os mesmos que o reverenciaram nos anos 1990 — agora o ridicularizam por não alcançar mais os agudos estridentes e o drive característico de clássicos como Welcome to the Jungle e Sweet Child O’ Mine.


Mas por trás dessa zombaria, há um fenômeno cultural mais profundo: o etarismo que automaticamente traduz o preconceito contra o envelhecimento da voz, um tabu que também atinge grandes nomes da música brasileira.


Quando Um Mito Envelhece

Axl Rose tem hoje 63 anos. Sua voz, que nos anos 1980 unia potência, agressividade e alcance incomum, passou por décadas de turnês, cigarro, mudanças corporais e, claro, o desgaste natural do tempo. O cantor, que chegou a ser considerado um dos maiores vocalistas do Rock, hoje entrega performances mais contidas — algo comum entre intérpretes veteranos, como Ian Gillan do Deep Purple, por exemplo.


Entretanto, são alvo constante de comparações injustas com sus versões de trinta anos atrás. Em grupos e fóruns de fãs, é comum ler frases como “ele não canta mais nada” ou “deveria se aposentar”, esquecendo que o próprio timbre — mesmo modificado — ainda carrega a identidade e a emoção que os tornaram ícones.


A reação ao envelhecimento vocal não é exclusividade do Rock Internacional. No Brasil, artistas consagrados também enfrentaram críticas semelhantes — muitas vezes mais severas, por virem de um público acostumado à perfeição estética.


Gal Costa, por exemplo, viveu isso nos últimos anos de carreira. Ícone da Tropicália, dona de uma das vozes mais potentes e cristalinas da MPB, Gal começou a ouvir comentários sobre “perda dos agudos” e “voz cansada” em suas últimas turnês. Poucos se lembravam de que ela atravessava seis décadas de canto intenso, explorando técnicas, timbres e nuances com maturidade.


Da mesma forma, Gilberto Gil, Alcione e Milton Nascimento já foram alvos de análises cruéis nas redes, muitas vezes pautadas por uma ideia equivocada de que a “boa voz” é aquela que nunca muda.


A Voz Como Corpo Que Envelhece

Especialistas em fonoaudiologia e técnica vocal lembram que “a voz é um músculo vivo”, sujeito às mesmas transformações do corpo. O envelhecimento reduz a elasticidade das pregas vocais, alterando a respiração e exigindo novas estratégias de apoio.


“O problema é que o público espera imortalidade sonora, como se o artista não pudesse envelhecer”, explica a fonoaudióloga e preparadora vocal Lilian Sais em entrevista ao G1. “A maturidade vocal tem beleza própria — mas a cultura pop não aprendeu a valorizá-la.”


Entre o Mito e o Humano

Curiosamente, artistas que se reinventam são mais bem compreendidos em outros contextos. Bob Dylan, Leonard Cohen ou Johnny Cash transformaram suas vozes marcadas pelo tempo em novas formas de expressão. No Brasil, Milton Nascimento também trilhou esse caminho: sua voz recente, rouca e frágil, carregava uma emoção quase sagrada, a ponto de tornar sua despedida dos palcos em 2022 um evento de devoção nacional.


Talvez seja hora do público brasileiro — tão apaixonado por seus ídolos — aprender a ouvir o tempo. O agudo pode se perder, o drive pode desaparecer, mas a verdade artística continua ali, em outra forma.


Axl Rose, Gal Costa, Milton Nascimento e tantos outros provam que a voz não morre — apenas muda de estação. E se o tempo retira a potência, ele devolve algo mais raro: a vulnerabilidade, a memória e a humanidade do som.


Portanto, parem de ser chatos, aproveitem seus ídolos em vida, pois estamos perdendo as referências.





Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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