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Crônica: Duas Vezes a Vida, Nenhuma o Olhar

[...] há vidas que a gente salva por dever, e há outras que nem com mil milagres conseguem ser curadas por dentro.

Crônica: Duas Vezes a Vida, Nenhuma o Olhar
Imagem Internet

Salvei esse homem duas vezes.


A primeira vez, o médico o desenganou, havia pouco tempo. Eu não pensei. Só agi. Força e instinto. Gritei por ajuda, coloquei minhas guias, pedi, manipulei elementos. Lembro do cheiro das ervas e do barulho da mata à noitinha. Ele vive, não sabia quem eu era. Para mim era o bastante. A segunda vez foi no hospital, meses depois, quando ele quase se foi de novo — uma reação aos excessos. Fiz o que tinha de ser feito: adrenalina, reza, fé, tradição. Novamente ele abriu os olhos, e vivo está. Ele não sabia de mim, e tudo bem. Não é palco o que procuro.


Mas ontem, no bar, o mesmo homem, bebendo água e alma vazia, olhou pra uma mulher negra e disse algo que fez o ar mudar de cor. Um comentário sujo, desses que nascem do mofo da ignorância. Eu estava ali, perto o bastante pra ouvir, longe demais pra acreditar.


Fiquei imóvel. E o mundo inteiro ficou pesado. Sem reação, queria fugir.


Pensei nas duas vezes em que eu o trouxe de volta pra vida — e percebi que talvez ele nunca tenha realmente vivido. Que para ele, vidas como a minha, como a dela, ainda valem menos. Quis gritar. Quis lembrar a ele que mãos negras o resgataram, que um coração negro manteve o dele batendo quando o mundo escurecia. Mas me calei. Não por covardia — por cansaço. Porque o peso de provar nossa humanidade todo dia é mais exaustivo do que erguer um carro tombado.


Hoje entendo: há vidas que a gente salva por dever, e há outras que nem com mil milagres conseguem ser curadas por dentro.


E eu sigo — negro, inteiro, com minhas mãos que salvam e minha alma que resiste. Enquanto ele, mesmo salvo, continua perdido.






Jeff Soares

Músico 

Jornalismo

Apresentador do Aqui de Casa Podcast


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