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A Megaoperação da Morte

Sucesso ou Tragédia?

A Megaoperação da Morte
Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

Na última terça-feira, 28 de outubro de 2025, o estado do Rio de Janeiro deflagrou uma desastrosa operação contra o grupo criminoso Comando Vermelho (CV) nos complexos da Complexo do Alemão e da Complexo da Penha. Batizada “Operação Contenção”, mobilizando cerca de 2.500 agentes segundo o governo.


O número oficial de mortos chegou a 121 pessoas, incluindo quatro policiais. A magnitude do confronto levou a que essa ação fosse apontada como a mais letal da história do estado do Rio e mesmo do Brasil até hoje. No entanto, apesar da ostensiva mobilização, a operação traz consigo falhas graves — tanto no planejamento quanto na execução — que merecem ser destacada.


Falha no Planejamento Estratégico e nas Prioridades

Embora o objetivo declarado fosse alcançar lideranças da facção, o principal alvo, Edgar Alves Andrade (também conhecido como “Doca” ou “Urso”), não foi preso. A operação teve escala extraordinária, mas especialistas questionam se a mobilização se traduziu em benefício concreto além do espetáculo da força. Há críticas de que a ação tratou a favela como teatro de guerra, mais do que um território onde lives de inteligência, logística, minimização de danos civis e integração comunitária deveriam ter sido priorizados.


Falta de Transparência e Dificuldades para as Famílias

O Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto (IML) informou que havia identificado cerca de 100 dos 121 corpos até 30 de outubro. Apesar disso, as famílias reclamam de barreiras no reconhecimento dos corpos, da não divulgação de lista pública de nomes e da liberação de corpos lacrados, o que dificulta o luto digno e a responsabilização. A demora em exames, laudos completos e liberação de corpos é fonte de indignação e reforça a sensação de desamparo das comunidades atingidas.




Indícios de Execuções, Tortura e Uso de Força Excessiva

Moradores e testemunhas relataram cenas chocantes: corpos sem camisa, tiros à queima-roupa, mãos decepadas, decapitações, e casos em que pessoas que teriam se rendido foram mortas. A ONU pede investigação independente, porque “estes atos podem equivaler a execuções ilegais”. A polícia afirma que cumpriu todos os protocolos e que os mortos eram criminosos. O Governador, Cláudio Castro, declarou que “os quatro policiais foram as vítimas reais” da operação.


Impacto Sobre a População Civil e Infraestrutura

A ação causou caos: escolas fechadas, ruas bloqueadas, moradores alarmados, veículos queimados. A ocorrência em áreas densamente povoadas como favelas implica risco alto à integridade de moradores que não têm envolvimento direto com o crime — o planejamento deveria ter incluído maior proteção a essas pessoas e garantias de evacuação ou retirada segura. O cenário registra que o confronto foi intenso, prolongado e atingiu regiões de mata próxima às comunidades, o que evidencia a escalada do uso de força em contextos urbanos frágeis.


Falta de Resultados Claros Para Além da Letalidade

Mesmo com a apreensão de armas e drogas – 118 armas, mais de uma tonelada de drogas segundo balanço – não há clareza se esse resultado sustenta uma estratégia sustentável de desarticulação do crime. A operação não conseguiu capturar o principal líder visado, o que questiona o custo humano e social versus o benefício real em termos de redução de comando criminoso. Especialistas em segurança pública afirmam que a elevada letalidade, tende a ter efeitos perversos e pouco transformadores.


Questionamentos Que Exigem Investigação Urgente

O governo do Rio já afirmou que dentre 99 identificados, 78 tinham “antecedentes graves”. Quem foram exatamente as 117 pessoas (além dos quatro policiais) que morreram? Quantas tinham mandados de prisão ou estavam em confrontos de fato, ou foram vítimas de execução?


Qual foi o papel dos drones, artefatos explosivos e o uso de matas/terrenos acidentados como campo de confronto? O modus operandi dessa ação é novo e merece ser analisado.


Até que ponto os protocolos policiais de contenção e de respeito a vida e a dignidade humana foram respeitados? Será que as câmeras corporais funcionaram integralmente? Foram tomadas medidas de salvamento de feridos? Testemunhas relatam falhas graves.


Porque apenas 64 mortos foram anunciados no primeiro momento, cabendo a população localizar e transferir mais de 60 cadáveres e expô-los em praça pública, somatizando 117 além dos 4 policiais?


Qual o impacto a médio e longo prazo para as comunidades dos Complexos do Alemão e da Penha — em termos de confiança nas instituições, continuidade de violência, reinserção social, apoio às famílias das vítimas?


Haverá responsabilização — civil, penal e institucional — para os casos que indiciam execuções sumárias? A investigação será independente e transparente, ou ficará restrita ao poder público estadual?




A operação do estado do Rio trouxe à luz uma realidade amarga: a interlocução entre crime organizado, política de segurança pública e direitos humanos está em um ponto crítico. O fato de ter sido considerada “um sucesso operacional” pelo governo – com armas apreendidas, prisões, mortes de criminosos – não elimina as falhas que se revelam graves. A estratégia parece ter privilegiado a letalidade acima da redução de danos. A transparência e o cuidado com as famílias das vítimas foram insuficientes. A responsabilização por violações, ou sequer a apuração adequada, parece incerta. O custo humano foi altíssimo, e cabe perguntar se o retorno estratégico vai além do simbólico.


Para que lições sejam realmente aprendidas — e que fatos como este não se repitam –, é imprescindível que haja: Investigações independentes, com acompanhamento público e participação da sociedade civil. Reformas no policiamento que privilegiem a vida, inteligência e integração com as comunidades. Cumprimento estrito dos protocolos e garantias mínimas para civis. Transparência nos dados sobre vítimas, feridos, prisões e resultados de médio prazo.

Sem isso, operações como a de 28 de outubro correm o risco de se tornarem não episódios isolados, mas marcas profundas de uma lógica de segurança que segue matando mais do que prevenindo — e reforçando ciclos de violência, medo e desconfiança.





Jeff Soares

Músico

Jornalismo

Apresentador do Aqui de Casa Podcast


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