O que é Necropolítica?
O Poder de Decidir Quem Deve Morrer
O termo necropolítica ganhou destaque nas últimas décadas, especialmente em contextos marcados por desigualdade, racismo e violência de Estado. Criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, o conceito descreve o poder de governos e instituições de decidir quem pode viver e quem deve morrer — um poder que se manifesta não apenas por meio da força, mas também pela omissão, pelo abandono e pela indiferença.
A Origem do Conceito
Derivada da junção de necro (morte) e política (governo, administração), a palavra foi desenvolvida por Mbembe no início dos anos 2000, em contraposição à biopolítica de Michel Foucault. Enquanto Foucault analisava como o poder moderno busca preservar e controlar a vida, Mbembe mostrou que, em muitas sociedades, esse mesmo poder se expressa pelo domínio sobre a morte.
Em seu ensaio “Necropolítica” (2003), o autor afirma que o Estado contemporâneo — especialmente em países marcados pela herança colonial e pelo racismo — define “zonas de morte”: territórios e corpos que podem ser sacrificados sem escândalo, porque não são reconhecidos como plenamente humanos.
Necropolítica na Prática
A necropolítica pode ser observada nas guerras, nas fronteiras militarizadas, nos genocídios, nas políticas de encarceramento em massa e, de forma mais sutil, nas omissões estatais que condenam populações inteiras à morte por fome, doenças ou violência.
No Brasil, o conceito é frequentemente usado para analisar situações como: A violência policial que atinge de forma desproporcional jovens negros das periferias; A negligência nas políticas de saúde e moradia, que mantém comunidades inteiras em vulnerabilidade; A destruição de territórios indígenas e quilombolas, com o avanço do garimpo e do agronegócio; A condução da pandemia da Covid-19, em que decisões políticas resultaram em milhares de mortes evitáveis.
Em todos esses casos, o Estado — por ação ou omissão — define quais vidas são protegidas e quais são descartáveis.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters/Folhapress
A Operação no Rio e o Exemplo Concreto da Necropolítica
A Operação no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, é um exemplo recente e contundente da necropolítica em ação. Sob o argumento de combate ao crime organizado, forças policiais entraram em comunidades do Complexo da Penha e do Alemão, transformando áreas densamente povoadas em zonas de guerra.
As cenas de corpos nas ruas, casas perfuradas por tiros e moradores aterrorizados reforçam a ideia de que certas vidas valem menos. Enquanto as operações em bairros de elite seguem protocolos rigorosos, nas favelas a lógica é de extermínio. Para o sociólogo e pesquisador Michel Misse, falecido neste ano, especialista em violência urbana, “essas ações revelam uma política de segurança que naturaliza a morte dos pobres e negros como preço aceitável da ordem”. O discurso oficial fala em combate ao tráfico; a prática, porém, mostra um Estado que age como soberano sobre a vida dos marginalizados, decidindo quem merece viver e quem pode ser eliminado.
Quem Decide Quem Vive?
A necropolítica nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: em nome de que — e de quem — o Estado mata?
Quando o poder público transforma territórios populares em campos de batalha, ele reafirma a hierarquia de vidas que estrutura o país desde a escravidão. A morte, nesse contexto, deixa de ser um acidente e se torna uma forma de governo. Como resume Achille Mbembe: “o poder de matar ou deixar morrer é o poder último — aquele que define a soberania”.
A necropolítica é a política da morte, exercida quando o Estado — direta ou indiretamente — decide quais vidas são dignas de existir. No Brasil, operações como a do Rio de Janeiro mostram que a necropolítica não é um conceito abstrato, mas uma realidade cotidiana nas periferias, onde o direito à vida ainda é privilégio, não garantia. E o pior, uma política que visa apenas o pleito eleitoral, visto que boa parte da sociedade aplaude a morte banalmente, sem o direito do exercício da lei, da justiça e da ordem.
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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