Halloween à Brasileira
Entre o Susto Importado e o Jeitinho Nacional
Todo fim de outubro, as vitrines dos shoppings se enchem de abóboras sorridentes, fantasmas simpáticos e morcegos de isopor. As escolas organizam festinhas à fantasia, os condomínios distribuem doces, e as redes sociais se enchem de maquiagens sombrias e filtros de terror. O Halloween, celebração que nasceu no frio outono norte-americano, já se naturalizou de tal forma por aqui que muitos esquecem que ele é, na verdade, uma importação cultural.
Mas o Brasil, como sempre, tem um talento nato para adaptar o que vem de fora. O “trick or treat” virou “doce ou travessura”, mas dificilmente as crianças saem batendo de porta em porta — afinal, nem todo bairro é feito para esse tipo de aventura. Aqui, a festa ganhou sotaque, tropicalismo e um certo toque de improviso. O que lá é abóbora e cemitério, aqui pode muito bem ser fantasia de onça, glitter no rosto e uma playlist que mistura Michael Jackson com Anitta.

Há quem critique a celebração, acusando-a de apagar tradições nacionais, como o Dia do Saci — criado justamente como contraponto ao Halloween. E há quem abrace o espírito da festa sem culpa, enxergando nela apenas uma boa desculpa para se divertir, vestir algo inusitado e tirar fotos com maquiagem de caveira. A verdade é que, no fundo, o brasileiro nunca copia nada por completo: ele recria.
O Halloween “abrasileirado” é mais colorido, mais barulhento e menos assustador. Nas escolas, ele vira desfile de fantasias fofas. Nos bares, festa temática com direito a caipirinha de sangue falso e DJ fantasiado de vampiro. Nos lares, crianças misturam abóboras com pirulitos e tiaras de diabinha compradas na 25 de Março. O resultado é um híbrido cultural que, por mais que desagrade os puristas, reflete bem quem somos: um povo que mistura tudo, se diverte com tudo e transforma qualquer tradição em motivo para festa.

Famosos celebram Halloween com festa temática no Rio de Janeiro em 2024
No fim das contas, o Halloween no Brasil não é sobre susto — é sobre conexão. É sobre a vontade de participar de algo global, ainda que com um toque local. E se o espírito dessa celebração é brincar com o medo, talvez o nosso maior “terror” seja mesmo não aproveitar o feriado, a fantasia e a oportunidade de rir de si mesmo.
Afinal, como diria o jeitinho brasileiro: se é pra importar, que seja com brilho, samba e um bom doce no final.
Ninha Sousa

Colunista
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