O Que É Ser Puta?
Reapropriando o termo!
Por muito tempo, a palavra puta foi usada como arma. Uma bala verbal para desqualificar, humilhar e, até mesmo enquadrar. Era o rótulo que marcava a mulher que ousava transgredir o que o moralismo considerava “correto”: a que tinha liberdade sexual, a que se vestia sem pedir licença, a que falava o que pensava, a que não aceitava ser submissa. Ser chamada de puta era sentença — social, moral e até profissional.
O mundo vem mudando. De uns anos pra cá, mulheres têm tomado posse desse insulto. Reapropriado o termo. Feito dele um escudo — e, em alguns casos, uma bandeira. Porque, no fundo, puta sempre foi o nome que o machismo dava à mulher livre.
A Palavra Que Incomoda
A origem da palavra vem do latim ‘putta’, usada para se referir a jovens ou servas. Ao longo dos séculos, o termo foi sendo carregado de conotações morais e religiosas, sempre em torno da ideia de pecado e impureza. No Brasil, a palavra ganhou o poder de anular a reputação feminina. Bastava um boato, uma roupa, um comportamento “fora do padrão” para a sentença ser decretada: “é puta”.
“É uma palavra que revela a obsessão histórica da sociedade em controlar o corpo e o desejo da mulher”, explica a linguista e pesquisadora Lúcia Teixeira. “Mas, quando as mulheres se apropriam dela, estão subvertendo esse poder.”
Da Ofensa à Afirmação
Nas redes sociais, em marchas feministas e coletivos de trabalhadoras sexuais, puta vem ganhando novas camadas de significado. Movimentos como a “Marcha das Vadias”, que surgiu no Canadá e se espalhou pelo mundo, transformaram o insulto em símbolo de resistência. “Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias”, dizia um dos cartazes que vi.
Hoje, trabalhadoras do sexo, as meninas do "job", também reivindicam o termo como parte de sua identidade política. “Sou puta e tenho orgulho. Não porque é fácil, mas porque é um trabalho digno, e não vou aceitar que a sociedade me desumanize por isso”, afirma uma integrante do Coletivo Puta Feminista, de São Paulo.
A Força da Ressignificação
Reapropriar palavras é um ato político. É a desconstrução de uma linguagem que servia para oprimir — e agora serve para libertar. A ressignificação não apaga a violência do passado, mas ressignifica o futuro. Ser puta pode significar ser dona do próprio corpo, da própria história, da própria voz. É um exercício de autonomia que desafia séculos de silêncio imposto.
Quando uma mulher diz “sou puta, e daí?”, ela não está necessariamente falando de profissão — mas de liberdade. De recusar o enquadramento, de viver sua sexualidade sem culpa, de existir fora da régua moral alheia. No fundo, o medo de ser chamada de puta foi um dos grandes instrumentos de controle sobre as mulheres. Ressignificar a palavra é, portanto, libertar-se dele.
Porque, no fim das contas, puta é só uma palavra. Quem dá o peso — e o poder — somos nós. No fundo, sejam mulheres ou homens, somos todos “putas”, basta se despir da hipocrisia que a sociedade insiste em imprimir.
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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