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Qual o Impacto da Cor da Pele nos Laços Afetivos?

[...] A afetividade, então, deixa de ser um espaço de cura e torna-se mais uma arena de desigualdade.

Qual o Impacto da Cor da Pele nos Laços Afetivos?
Imagem Internet/Unsplash

A cor da pele, em uma sociedade marcada por séculos de racismo estrutural, não é apenas uma característica física: é um marcador social que atravessa afetos, desejos e relações. No Brasil — país que se orgulha de sua “miscigenação” — ainda há um abismo entre o discurso da igualdade e a prática cotidiana das relações interpessoais. A forma como as pessoas amam, desejam e se vinculam emocionalmente ainda carrega resquícios profundos de hierarquias raciais.


O chamado “afeto racializado” é um tema cada vez mais debatido por pesquisadores e militantes. Ele revela que o amor, longe de ser neutro ou “cego à cor”, muitas vezes reflete as estruturas de poder que moldam quem é visto como desejável e quem é colocado à margem. Não é raro observar, por exemplo, homens negros sendo fetichizados e em seguida evitados, sem falar nas mulheres negras sendo rejeitadas como parceiras estáveis — desejadas em segredo, mas não assumidas em público. Ao mesmo tempo, pessoas brancas continuam ocupando o topo do imaginário afetivo e estético, como se representassem um ideal universal de beleza e respeito.




Esses padrões de afeto são reforçados desde cedo. Na mídia, nas novelas, nas redes sociais, a branquitude é constantemente associada à delicadeza, ao sucesso e à possibilidade de ser amado. Já a negritude, muitas vezes, é vista como resistência, força, sensualidade — mas raramente como ternura ou reciprocidade. Essa construção simbólica afeta a autoestima e a forma como as pessoas negras se percebem e são percebidas no campo amoroso.


O resultado é um ciclo doloroso: enquanto alguns internalizam a rejeição e passam a se culpar por não serem “escolhidos”, outros reproduzem, de forma inconsciente, o mesmo padrão de exclusão, buscando parceiros que reforcem a ideia de “ascensão” pela branquitude. A afetividade, então, deixa de ser um espaço de cura e torna-se mais uma arena de desigualdade.


Romper com isso exige consciência e coragem. É preciso olhar para o próprio desejo e perguntar: quem eu amo — e por quê? Questionar o que parece natural é o primeiro passo para reconstruir os laços afetivos sob bases mais justas e humanas. Amar, de fato, é também um ato político: é escolher ver o outro em sua plenitude, sem hierarquizar existências pela cor da pele.


Em uma sociedade que ainda insiste em medir o valor das pessoas pelo tom da pele, amar sem filtros raciais é, um ato de extrema complexidade, um movimento de resistência também, uma revolução ainda desconhecida.







Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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