Uma História da Estação Rodoviária
[...] contou-me também que era soropositiva, desde uma doação de sangue nos anos 90.
12/08/2024 18:11
Tornei-me observador com o passar do tempo, gosto de ficar observando o movimento das pessoas e o ritmo que a vida impõe, com isso também me tornei um ouvinte de histórias de pessoas desconhecidas, pessoas que surgiam do nada e apenas desabafavam. Amigos dizem que tenho um quê de psicólogo, mal sabem eles que a minha terapia tá atrasada, mas bem atrasada (risos).
Um dos lugares onde mais ouço histórias é na estação rodoviária de Pelotas. A última foi anteontem, quando uma Senhora, que me disse ter 65 anos e que pedia ajuda para comprar gás para poder cozinhar, seu nome é Conceição. Contou-me que tem uma filha deficiente e que ela precisava se virar para manter à casa, disse que estava no ali há algumas horas, pedindo aos viajantes que estavam na espera de seus embarques, para que lhe ajudassem. Contou-me também que era soropositiva, desde uma doação de sangue nos anos 90.
O semblante dessa senhora estava absurdamente triste, perguntei se ela estava bem e ela apontou para um homem que carregava uma Bíblia na mão, mas que a mandou se afastar dele, pois assim como havia relatado a mim, também relatou a ele que convivia com a AIDS, mas o homem foi grosseiro e totalmente ignorante com ela. Desabafou ainda que não estava ali roubando, ela só queria ajuda para poder fazer uma comidinha em casa para ela e pra a filha.

Sob os olhares de reprovação do homem que havia lhe maltratado tirei a carteira do bolso e lhe dei uma ajuda, também lhe ofereci água e disse que ela podia levar com ela. Dona Conceição ficou muito agradecida, seu olhar mudou, disse que queria me dar um abraço, mas que não sabia se eu permitiria, lhe disse que ela poderia me dar um abraço e que se eu pudesse, lhe ajudaria mais. Nos abraçamos, ela elogiou o meu abraço, agradeceu - me novamente e assim seguiu sua jornada um pouquinho mais confiante.
Meu encontro com dona Conceição naquele lugar, me fez pensar mais uma vez sobre como nós somos atrasados e ignorantes, além de comprovar pela enésima vez, que pequenas atitudes podem fazer uma grande diferença na vida das pessoas. O preconceito e a ignorância não são o caminho. Ouvir, dar atenção e confiança são fundamentais para que nós tenhamos coragem de seguir em frente, mesmo diante de dificuldades imensas.
No fim das contas acabei ficando triste, gostaria de lhe ouvir um pouco mais, quem sabe ajudar um pouco mais, me arrependi de não ter dito a esse homem algumas coisas, mas parei pra pensar, talvez fosse melhor escrever e compartilhar com vocês.
por Jeff Soares
Músico, Jornalista e Web Designer


Comentários (0)