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Uma Conversa Sobre A Retirada da Letra T da Bandeira LGBTQIA+

O movimento não existe sem travestis e transexuais!

Uma Conversa Sobre A Retirada da Letra T da Bandeira LGBTQIA+
Imagem Internet/Unsplash

A discussão recente sobre retirar a letra T da sigla LGBTQIA+ revela, antes de tudo, um profundo desconhecimento histórico. Não existe luta possível, nem memória honesta, sem reconhecer o papel essencial que travestis e transexuais tiveram(e ainda têm)na construção de tudo o que hoje chamamos de movimento. A letra T não é um detalhe, não é um apêndice, não é uma “questão separada”. O T é a base. O T é a linha de frente. O T é a parte da bandeira que sempre carregou o peso que outros não precisaram carregar.


É impossível olhar para a trajetória do movimento LGBTQIA+ sem perceber que, desde os primeiros enfrentamentos contra a violência policial, a perseguição moral e a marginalização social, eram travestis e transexuais que estavam expostas à brutalidade mais direta. Muitas vezes não por escolha militante, mas porque a sociedade não lhes oferecia outro lugar senão o da rua, o da noite, o da sobrevivência. Enquanto algumas pessoas podiam se esconder, negociar sigilos, proteger suas identidades e passar despercebidas, essas mulheres e homens trans nunca tiveram esse privilégio. Seus corpos sempre foram lidos como afronta, e toda afronta, na lógica do preconceito, vira alvo.


É por isso que tentar reduzir ou apagar o T da bandeira se torna tão cruel. Porque não é apenas retirar uma letra: é retirar a história de quem sustentou o primeiro grito de resistência quando ninguém mais ousava fazê-lo. É escolher esquecer vidas inteiras que foram sacrificadas para que outras pudessem viver com mais dignidade.




Ao longo do tempo, muitas histórias se repetiram com um padrão doloroso: exclusão social, expulsão familiar, violência policial, precarização absoluta, morte precoce. A sociedade transformou travestis e transexuais em sinônimo de perigo, piada, fetiche ou escândalo, tudo, menos humanidade. E dentro desse processo de desumanização, casos como o de Gisberta Salce Júnior mostram o quanto essa violência não é exceção, mas consequência.


Gisberta era uma travesti brasileira vivendo em Portugal, tentando sobreviver como tantas outras trans brasileiras que precisam deixar seu país para buscar algum respiro. Passou por abandono, falta de acolhimento, dificuldades de acesso a saúde, violência cotidiana. Sua vida era marcada por tudo aquilo que a sociedade empurra para as travestis: vulnerabilidade extrema, invisibilidade e solidão.


Quando ela foi brutalmente assassinada em 2006, não foi apenas um crime isolado. Sua morte revelou como a transfobia se mistura com o descaso social, como o preconceito institucional produz condições para que esse tipo de violência aconteça, como o mundo ainda enxerga o corpo travesti como descartável.



Gisberta, a brasileira foi morta em 2006 por um grupo de 14 adolescentes entre 12 e 16 anos


E por mais que sua história tenha chegado ao público, inclusive tocando profundamente artistas como Pedro Abrunhosa e Maria Bethânia, que a transformaram em poesia e memória na canção, Balada de Gisberta o que dói é perceber que tantas outras travestis continuam vivendo (e morrendo) sem que seus nomes sejam lembrados. A história de Gisberta só comove porque escancara uma ferida que nunca se fechou: a de que travestis são consideradas vidas que a sociedade permite perder.


Quando alguém defende retirar o T da bandeira, está, consciente ou não, repetindo a mesma lógica que levou Gisberta e tantas outras ao abandono. Está dizendo que travestis e transexuais são um problema “à parte”, que podem ser deixadas fora do discurso, fora do movimento, fora da proteção coletiva. Está afirmando que algumas vidas dentro da comunidade valem mais do que outras. Está aceitando que a luta pode ser fragmentada, desde que a parte fragmentada seja justamente a mais vulnerável. E isso é inaceitável.


A bandeira LGBTQIA+ só tem sentido se for inteira. Só tem força se reconhecer quem veio antes, quem resistiu primeiro, quem apanhou, quem morreu, quem nunca teve a chance de escolher outra vida senão a de enfrentar a violência todos os dias. O T não é um pedaço que se retira para tornar a sigla “mais simples” ou “mais palatável”. O T é a lembrança permanente de que a comunidade só existe porque travestis e transexuais, mesmo sob o peso do mundo, continuaram vivas, mesmo quando tudo parecia querer que elas não estivessem.


Retirar o T é retirar o coração político da nossa história. E bandeira sem coração, sem representatividade, não representa ninguém.





Tamara Nunes

Taróloga

Artesã

Confeiteira

Colunista

Jornalismo

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