Tremembé: Cristian Cravinhos, um assassino sim, mas gay, JAMAIS
“Tremembé” é uma série brasileira de 2025, lançada no Prime Video Brasil, inspirada nos livros do jornalista Ulisses Campbell.
Olá, aqui de Casers. Como boa fã de “true crime”, vim comentar algo que me chamou atenção nas reações à série Tremembé: a forma como Cristian Cravinhos responde à maneira como sua vida foi retratada. Na produção, ele aparece envolvido numa relação afetiva e sexual com outro detento, algo que a série trata como parte essencial para compreender as dinâmicas internas do presídio e, principalmente, como relações de proteção e afeto acontecem em ambientes onde a sobrevivência exige códigos próprios.
A obra faz isso sem sensacionalismo barato e sem reduzir a complexidade humana dos envolvidos, e esse é justamente um de seus méritos.
Mas a reação do Cristian real revela uma camada crítica que ultrapassa a discussão sobre “verdade” e “ficção”. Ele nega veementemente ter vivido qualquer relação homoafetiva dentro da prisão, e o mais intrigante é observar a facilidade com que assume, sem pudor algum, a imagem de assassino, enquanto rejeita com violência simbólica qualquer possibilidade de ser associado a um vínculo afetivo com outro homem.
Essa escolha, preferir ser visto como criminoso do que como gay, diz muito sobre ele, mas principalmente sobre como funciona a cabeça da maioria dos homens, como se molda o pensamento de uma sociedade inteira. O cara que matou junto com o irmão um casal acha que vai ser descredibilizado por assumir a homossexualidade. Que moral tem, né?
E é fundamental dizer: essa crítica não é à produção. Aliás, a série é excelente. A crítica em si é sobre como as pessoas assumem rótulos e encaram todas as letras da sigla LGBT, na cadeia ou fora dela.
A série não o diminui; ela se propõe a explorar nuances que muitos preferem esquecer quando se trata de figuras que já foram transformadas em monstros públicos. Cristian, por outro lado, parece mais confortável com o rótulo de assassino, como se isso reforçasse uma masculinidade que ele tenta preservar, enquanto a possibilidade de afeto entre dois homens seria, para ele, uma ameaça intolerável à sua imagem.
E essa reação não acontece no vácuo. Esse ódio e esse estigma se disseminam pelo mundo inteiro, mas também acontecem no Brasil, um país profundamente preconceituoso, onde até dentro das prisões o patriarcado continua gritando e a masculinidade frágil berra. Berra tão alto que um homem prefere carregar para sempre o peso de um homicídio do que admitir a simples ideia de ter vivido um ato de afeto.
No imaginário brasileiro, ser visto como “machão”, violento, agressivo, perigoso, até assassino, é mais aceitável do que ser visto como gay. Essa lógica distorcida revela o quanto a homofobia estrutura não só o cotidiano das ruas, mas também o das celas. E o quanto essa armadura masculina continua sendo mais importante, para muitos homens, do que a própria verdade.
Por isso, a crítica não recai sobre os autores, que fizeram uma leitura possível e cuidadosa das relações dentro de Tremembé, mas sobre a reação de Cristian. Ele trata o crime como parte inerente de sua biografia com uma naturalidade assustadora, enquanto encara a sexualidade como um risco para a imagem que deseja manter.
Essa inversão de valores é, em si, um comentário sobre o Brasil: um lugar onde ser assassino não abala a “honra masculina”, mas ser associado à homossexualidade, sim.

Tremembé abriu conversas importantes, expôs dinâmicas que o público raramente vê e trouxe humanidade, mesmo que desconfortável, para personagens frequentemente reduzidos a manchetes. A crítica que fica é sobre Cristian Cravinhos, o real e a forma como ele, e muitos homens, pensam, não sobre a obra. Mas o fato de ele rejeitar a possibilidade de ter amado ou sido amado por outro homem, mas aceitar com absoluta tranquilidade o peso de um assassinato, diz muito sobre os muros invisíveis que a homofobia e a masculinidade tóxica constroem no Brasil.
No fim, a série narra uma história. Cristian, ao tentar desmenti-la, revela outra, talvez ainda mais reveladora: o lado obscuro e maligno do ser humano. Uma pessoa que bateu em um casal de idosos até eles perderem a vida acha que vai perder a moral por ter sido vista de calcinha. Cristian Cravinhos, tua moral não existe há muito tempo.
Esse texto não foi escrito com o intuito de te fazer mudar de ideia ou transformar alguém em mocinho ou vilão. E sim para questionar quais rótulos as pessoas têm preferido usar para mascarar aquilo que elas realmente são.
“Tremembé” é uma série brasileira de 2025, lançada no Prime Video Brasil, inspirada nos livros do jornalista Ulisses Campbell. A trama retrata o dia-a-dia de detentos de alta repercussão nacional na Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, em Tremembé, São Paulo, entre eles Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga, Alexandre Nardoni, Anna Carolina Jatobá e outros. A série investiga não apenas os crimes que chocaram o país, mas como os condenados lidam com poder, convivência e exposição dentro da prisão.
Tamara Nunes

Taróloga
Artesã
Confeiteira
Colunista
Jornalismo
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