Crônica: O Banho
[...] não há plateia, nem exigências...
Durante muito tempo procurei algum lugar-comum ou momento onde realmente pudesse ter alguns minutos de privacidade. Lá fora, o barulho não para — notificações, prazos, vozes, expectativas. Mas é no instante em que a porta se fecha e a água começa a cair que algo muda. O som do chuveiro vira um disfarce perfeito para o pensamento e às vezes para as lágrimas. A água quente escorre pelo corpo apagando o ruído dos dias, devolvendo o direito de respirar sem pressa no envolver do vapor quente da água.
No banheiro, não há plateia, nem exigências. O espelho , embora reflita o cansaço, não julga. É um pequeno território onde se pode chorar sem testemunhas, cantar e desafinar para ninguém, repassar conversas que ficaram atravessadas ou planejar o que vem pela frente com a coragem que a solidão consegue oferecer.
Talvez o banho seja, para muitos, uma espécie de refúgio líquido — o único momento de intimidade verdadeira num mundo que invade até nossos pensamentos. A água, por alguns minutos, suspende o tempo. É uma pausa necessária, uma trégua breve, mas suficiente para lembrar que ainda há um “eu” por trás de todas as obrigações.
E quando o chuveiro se fecha e o vapor se dissipa, é como voltar do exílio. Revigorado? Não sabemos. Limpo? Talvez só o corpo, já o espírito... Porque, às vezes, o que a gente precisa para suportar o mundo é justamente isso: um bom banho!
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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