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Quando o Tambor Toca, Mas O Privilégio Dança Primeiro

[...] um fenômeno sutil, mas profundamente revelador.

Quando o Tambor Toca, Mas O Privilégio Dança Primeiro
Foto: Sércio Freitas/Divulgação/Afropunk

Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma explosão de festivais e eventos que se dizem inspirados na cultura afro-brasileira. São celebrações que, em tese, nasceram para valorizar as raízes negras, a ancestralidade, o tambor, o corpo livre, a estética e a espiritualidade que moldaram o que há de mais genuíno na nossa cultura popular. Em muitos deles, o discurso é bonito: fala-se de resistência, de pertencimento, de conexão com a ancestralidade. Mas, na prática, o que se vê é uma contradição dolorosa — o embranquecimento desses espaços.


É um fenômeno sutil, mas profundamente revelador. Quando olhamos para as fotos e vídeos de festivais como o Afropunk, por exemplo, um dos maiores eventos de cultura negra do mundo, percebemos um contraste entre o que se pretende celebrar e o público que de fato ocupa o espaço. Embora o festival tenha nascido no Brooklyn como um grito de orgulho negro, sua chegada ao Brasil, em cidades como Salvador e São Paulo, acabou reproduzindo as dinâmicas de exclusão: ingressos caros, estruturas elitizadas e um público majoritariamente branco.


O mesmo acontece em eventos menores, que se dizem “afrocentrados”, “decoloniais” ou “ancestrais”, mas que, na prática, se tornaram vitrines para um público que consome a cultura negra como uma experiência estética — não como uma vivência política. As imagens que circulam nas redes sociais mostram turbantes, estampas africanas, drinks coloridos e palavras de ordem transformadas em hashtags. Tudo muito bonito, mas profundamente vazio quando a maioria dos corpos negros está do lado de fora, sem dinheiro para entrar.


O problema não é a presença de pessoas brancas. O problema é o apagamento. Quando o consumo se sobrepõe ao sentido, o protagonismo se dissolve. Festivais que nasceram para exaltar o povo negro passam a reproduzir as mesmas dinâmicas de exclusão que a rua e o mercado impõem: o ingresso é caro, o bar cobra em dobro, e o som que nasceu do gueto vira trilha para fotos no Instagram.


Há, claro, exceções — e resistências. A Feira Preta, criada por Adriana Barbosa há mais de vinte anos, segue sendo um dos poucos espaços que mantêm o foco na economia e na representatividade negra de forma consistente. Ali, a estética é política. A ancestralidade é prática. O empreendedorismo é ferramenta de autonomia. Mas o fato de que ainda precisamos apontar a Feira Preta como exceção já diz muito sobre o quanto a lógica do mercado cultural é excludente.


Quantos pretos estão nos bastidores dessas festas, comandando a produção, recebendo os lucros, decidindo a programação? Quantos estão nos palcos, não apenas como atrações pontuais, mas como protagonistas reconhecidos e bem pagos? E quantos estão apenas na entrada, trabalhando na segurança, na limpeza, na cozinha — invisíveis, mas sustentando o espetáculo?




O capitalismo é hábil em transformar resistência em tendência. A cultura negra, que sempre foi sinônimo de sobrevivência, agora é vendida como lifestyle. O samba, o funk, o maracatu, o rap e o candomblé — expressões que nasceram como resposta à dor e ao apagamento — são transformadas em produtos de consumo. O que antes era denúncia, hoje é decoração.


E há uma armadilha nisso: o que é vendido como “celebração da diversidade” muitas vezes mascara a permanência do racismo estrutural. Quando um festival “afro” é inacessível para a população negra, ele deixa de ser espaço de representatividade e se torna um espetáculo de apropriação. É o mesmo velho jogo — o privilégio dança, enquanto o tambor apenas marca o compasso.


Não se trata de fechar as portas, mas de reposicionar o centro. Se é afro, que seja afro de verdade: com pretos no comando, nas decisões, nas curadorias e nos lucros. Que as marcas patrocinadoras compreendam que diversidade não é apenas colocar rostos negros nas campanhas, mas garantir que a comunidade negra se beneficie material e simbolicamente desses espaços.


A cultura preta não é tendência. É herança. É poder. É memória viva de quem sobreviveu à escravidão, ao racismo, à pobreza e ainda criou beleza. Antes de ser festa, a cultura negra é espiritualidade, é denúncia e é reconstrução.


E é preciso dizer, sem medo de soar incômodo: o tambor pode até tocar para todos, mas ele nasceu das mãos de quem resistiu. E, enquanto o privilégio seguir dançando primeiro, essa música seguirá soando desafinada.





Ninha Sousa

Colunista

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