O Despreparo da Polícia e a Tragédia de um Jovem Esquizofrênico em Porto Alegre
Legítima Defesa?
Em setembro de 2025, um episódio chocante voltou a evidenciar uma falha grave no sistema de segurança pública: a morte de Herick Cristian da Silva Vargas, de 29 anos, chocou a sociedade gaúcha. Diagnosticado com esquizofrenia, Herick foi baleado por policiais da Brigada Militar dentro da própria casa, no bairro Parque Santa Fé, em Porto Alegre.
Segundo a família, a mãe de Herick acionou a polícia com a intenção de obter "ajuda médica", não para condenar seu filho a uma sentença de morte. No entanto, a ligação para a Brigada Militar – tradicional força de polícia militar no Rio Grande do Sul – culminou em uma ação violenta.
Imagens das câmeras corporais dos policiais, obtidas com exclusividade pelo SBT News, mostram que a abordagem começou com tentativas de diálogo: os policiais pediram que Herick permanecesse sentado, enquanto o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) era chamado para auxiliar. De acordo com a Brigada Militar, diante da evolução do quadro — teria havido agressividade física por parte de Herick — assim foram usados inicialmente uma arma de choque para contê-lo , antes de optarem à força letal. Foram feitos quatro disparos: ele morreu no local, pouco tempo depois.

Foto: Reprodução/ RBS TV
“Legítima defesa” ou falta de preparo?
A Brigada Militar defendeu a ação alegando que agiu conforme os protocolos de uso diferenciado da força, evoluindo de negociação para a força letal com base no comportamento da vítima.A Corregedoria-Geral da BM concluiu que havia “risco iminente à vida” dos policiais. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul, por sua vez, também concluiu que os agentes agiram em "legítima defesa". Segundo o inquérito, os policiais observaram os protocolos previstos, e não houve indiciamento.
Para muitos observadores e analistas de segurança, no entanto, a tragédia revela algo mais profundo que uma ação policial isolada: o despreparo institucional para lidar com situações envolvendo pessoas com transtornos mentais.
Um Sistema Policial Falho
Apesar de existirem diretrizes para uso progressivo da força, especialmente em casos de crise psiquiátrica, a realidade muitas vezes mostra policiais sem preparo adequado para abordar alguém em surto psicótico. No caso de Herick, mesmo com uso da arma de choque, a situação escalou para disparos fatais.
A chamada para a polícia partiu da família com um pedido de auxílio, mas a resposta foi tratada como uma ocorrência de “risco policial”. Quantos policiais têm habilidade para neutralizar alguém em crise sem recorrer imediatamente ao uso da arma de fogo?
Este episódio não é mais um caso isolado. A letalidade da polícia em abordagens cresce quando envolve pessoas vulneráveis. Um estudo da UFRGS aponta o “despreparo da polícia” como fator central em violência policial no estado.
É preciso investir massivamente na capacitação policial para lidar com saúde mental e a escolha do uso da arma de fogo, o treinamento psicológico, às simulações de abordagem e as políticas que priorizem a desescalada (ação sem violência), são essenciais. Estas ações que envolvem crises psiquiátricas devem incluir profissionais de saúde, não apenas agentes armados.
A simples conclusão de inquérito como “legítima defesa” não é o suficiente. A sociedade precisa discutir seriamente sobre o uso da violência, para que pessoas vulneráveis e civis não sejam automaticamente vistas como ameaças.
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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