Numa segunda-feira qualquer — dessas em que o barulho da cidade parece zombar da nossa existência — Edu percebeu que estava cansado de insistir no amor. Não que tivesse vivido muitas histórias; na verdade, tinha vivido poucas, mas intensas -- todas com uma pontaria cirúrgica para acertar bem no ponto exato em que a autoestima costuma morar.
A última desilusão nem foi a pior, mas foi a que mais ecoou. Um silêncio vindo do outro lado do telefone, um “acho melhor cada um seguir seu caminho” e, pronto, o mundo escorreu pelo ralo com a mesma rapidez com que a bateria do celular morria. Ele se viu sozinho na sala, olhando para o teto, como quem esperasse que algum tipo de sentido caísse das lâmpadas.
Foi então que Edu decidiu que precisava de algo forte, imediato — um bote salva-vidas para um afogamento emocional inesperado. Não queria conselhos, abraços, amigos, psicólogos, filmes tristes, músicas melosas. Queria… desligar. Desligar tudo. E, num impulso que ele mesmo não reconhecia, chamou um carro por aplicativo e pediu para que o levasse até o endereço “da luz vermelha”.
O motorista riu, como se já soubesse. E sabia.
O lugar tinha aquele cheiro de perfume doce misturado com desinfetante barato. As luzes eram vermelhas sim, mas não intensas; eram melancólicas, quase preguiçosas, como quem já viu histórias demais acontecerem debaixo delas. Edu entrou se sentindo meio ridículo, meio adulto demais para aquilo e meio adolescente demais para admitir que estava ali. Uma música lenta tocava, não por romantismo, mas por economia de energia.
Sentou - se no balcão, pediu uma dose de Jack Daniels sem gelo, para que queimasse a garganta e ficou a observar o pequeno movimento. Não sabia exatamente o que procurar. Talvez um alívio. Talvez um esquecimento. Talvez só a sensação de que, por uma noite, nada mais importava.
Foi então que ela chegou.
Não como chegam nos filmes — com salto firme, segurança exagerada ou olhar sedutor. Ela chegou devagar, com passos curtos, como quem sabe que a noite é longa e não tem pressa de enfrentar o próximo capítulo.
— Você parece perdido — ela disse, encostando no balcão como se fosse dona do lugar. Edu sorriu sem graça. — Hoje eu tô… desalinhado. Ela riu baixo. — Desalinhado é ótimo. Melhor do que dizer “acabar com tudo” ou “não sinto mais nada”. Desalinhado tem jeito.
O nome dela era Ruth — com “th”, fez questão de frisar, “porque minha mãe achou mais bonito”. Tinha uns trinta e poucos anos, olhos vivos e um jeito curioso de prestar atenção sem parecer invasiva.
Edu tentou parecer descolado. Falhou. — Posso te pagar um drink? — perguntou, meio automático. — Drink? Deus me livre. Já atendo homens bêbados demais. Prefiro café. — Café? — É. Tem na cozinha. É horrível, mas mantém minha cabeça no lugar. Ele pensou por um segundo. Café num puteiro. Era tão absurdo que parecia poesia. — Então… me leva até esse café.
Ela fez um gesto com a cabeça e os dois atravessaram um corredor estreito que parecia exalar histórias que doíam só de imaginar. Na cozinha, havia uma cafeteira velha, manchada de tempo, um pote de açúcar aberto e duas canecas descombinadas.
Ruth preparou tudo com a naturalidade de quem já transformou aquele lugar em sala de estar.
— Sabe — ela começou —, sempre acho curioso quando alguém entra aqui não pelo corpo, mas pelo coração. — Eu não disse que vim pelo coração. — E precisa? Ele suspirou. — Tô cansado de errar. — Todo mundo erra. A diferença é que alguns acham que o erro é o fim. Outros acham que é só uma curva feia na estrada. Você parece do primeiro tipo. Edu sorriu, finalmente, sincero. — Talvez. Ou talvez eu só tenha medo de tentar de novo. Ela soprou a xícara, pensativa. — Medo é normal. A gente só não pode deixar o medo fazer a mala e assumir o volante. — E você? — ele perguntou. — Não tem medo? Ela deu um gole no café amargo e respondeu sem hesitar: — Sempre. Mas continuo andando. Não por coragem. Por teimosia.
Eles conversaram por quase uma hora. Sobre quase tudo: fracassos, expectativas, músicas ruins, infância, cansaço, amor, a ilusão de que todo mundo parece estar vivendo melhor do que a gente. O café esfriou, a noite correu e o mundo lá fora continuou indiferente.
No fim, ela levantou.
— Tenho que voltar. A vida continua, né? — É… continua — ele respondeu, mas dessa vez não parecia tão pesado.
Antes de sair, ela colocou a mão no ombro dele e disse: — Quando você quiser beber café sem drama, me procura. Mas traga o café de casa. Esse aqui é terrível.
Ele riu — e percebeu que era a primeira risada verdadeira do dia.
Edu nunca imaginou que, ao tentar afogar mágoas em um puteiro, acabaria encontrando… humanidade. Não amor, não paixão, não fantasia. Humanidade. Uma xícara de café ruim e uma conversa boa.
Naquela noite, caminhou para fora do lugar com a sensação estranha de que talvez o mundo não tivesse ruído inteiro. Talvez estivesse só… desalinhado mesmo.
E desalinhado dá pra ajustar. Com café, inclusive.
Jeff Soares Músico Jornalista Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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