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Tremembé – Um País Que Glamouriza Criminosos

[...] funcionando como vitrine de uma glamourização que diz menos sobre os presos e mais sobre nós mesmos.

Tremembé – Um País Que Glamouriza Criminosos
Imagem Internet

O presídio de Tremembé, no interior de São Paulo, tornou-se, ao longo dos anos, mais do que um simples estabelecimento penal. Tornou-se símbolo. Símbolo de um país que transforma criminosos em celebridades e de uma sociedade que, em vez de enfrentar as próprias feridas, encontra na comoção seletiva no entretenimento baseado no crime uma espécie de catarse coletiva.


A “classe especial” da Criminalidade Brasileira

Conhecido como o “presídio dos famosos”, o Centro de Ressocialização de Tremembé recebe detentos que, por motivos de segurança ou alto grau de exposição pública, não podem cumprir pena no sistema comum. Ali, passaram figuras envolvidas em crimes de grande repercussão: assassinos, fraudadores, sequestradores, e réus que ocuparam o noticiário por semanas ou meses — às vezes por anos.


Na lógica da cobertura midiática, cada transferência para Tremembé vira evento: helicópteros acompanham viaturas, câmeras disputam o melhor ângulo e repórteres narram cada detalhe como se fosse capítulo de novela. O presídio vira cenário; os acusados, protagonistas.


Não é novidade que o Brasil tem uma relação peculiar com o crime quando ele envolve personalidades conhecidas ou histórias que causam fascínio mórbido. Teledramatizações, entrevistas exclusivas, podcasts investigativos, séries de streaming e análises infindáveis ocupam o entretenimento popular. A criminalidade, quando revestida de glamour midiático, rende audiência — e audiência rende dinheiro.


O problema não é a cobertura jornalística em si, indispensável para a transparência pública. O problema é a fronteira cada vez mais tênue entre informação e entretenimento. Entre denunciar e romantizar. Entre relatar e criar mitos.




A Cultura da Comoção Seletiva

Enquanto criminosos anônimos desaparecem no limbo de um sistema penal superlotado e desumanizado, casos envolvendo réus de grande visibilidade recebem tratamento narrativo. O país acompanha trajetórias, torce, opina, escolhe vilões e “anti-heróis”. Crimes brutais acabam moldados como sagas pessoais, e não como rupturas profundas da vida social. Essa glamourização também reflete a desigualdade estrutural brasileira: quando o criminoso é da elite, vira personagem; quando é pobre, vira estatística.


A própria existência de um presídio “diferenciado” escancara contradições do sistema penal. Tremembé é mais seguro, mais organizado e mais controlado do que a esmagadora maioria das unidades prisionais do país. Isso não é problema — o problema é que esse padrão não se estende ao restante do sistema, que continua marcado por superlotação, facções, violências internas e violações de direitos.


A pergunta inevitável é: por que só alguns têm direito a condições minimamente dignas?


Séries e podcasts sobre crimes de grande repercussão se popularizaram no Brasil nos últimos anos. A tendência reforça o que especialistas chamam de “cultura do fascínio pelo criminoso” — uma mistura de medo, curiosidade, sensacionalismo e busca por respostas fáceis para fenômenos complexos.


O resultado é uma sociedade que, muitas vezes, conhece detalhes da vida dos autores de crimes, mas ignora políticas públicas de prevenção, dados sobre violência estrutural ou causas sociais que alimentam o problema.


Quando criminosos tornam-se personagens influentes, o país passa a naturalizar o extraordinário. Crimes bárbaros ganham “fãs” nas redes sociais, discursos de ódio disputam espaço com teorias conspiratórias e a justiça é gradualmente transformada em espetáculo. Tremembé, nesse contexto, não é apenas um presídio. É metáfora de um país que alterna indignação e fascínio, punição e audiência, moralismo e espetáculo.




O Custo do Glamour

Glamourizar criminosos tem efeitos reais, afinal desumaniza às vítimas, que frequentemente desaparecem do debate. Confunde a opinião pública, que passa a interpretar casos concretos como narrativas ficcionais. Pressiona o sistema judiciário, que vira palco de disputas midiáticas e distorce prioridades sociais, desviando a atenção de políticas públicas de segurança, educação, prevenção e reinserção social.


O Brasil precisa discutir sua relação com o crime para além do sensacionalismo. A análise deve incluir mídia, justiça, cultura, educação e a própria sociedade — que consome, compartilha e transforma casos policiais em entretenimento nacional.


Enquanto isso, Tremembé segue lá, firme, funcionando como vitrine de uma glamourização que diz menos sobre os presos e mais sobre nós mesmos.






Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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