Um Amor, Um Café: O Segundo Café
Parte II (sequência de Um Café no Puteiro)
01/12/2025 13:21
| Atualizado há 6 meses atrás
Edu não sabia ao certo o que o fazia querer voltar a aquele lugar. Talvez fosse o sabor ruim daquele café, talvez fosse a conversa que lhe serviu mais conforto do que qualquer garrafa, talvez fossem os olhos de Ruth — atentos, sem pressa, como quem decifra sem tirar do lugar.
O fato é que, uma semana depois, lá estava ele novamente diante da porta do mesmo estabelecimento de luz vermelha. Só que, daquela vez, não entrou como quem busca fuga. Entrou como quem retorna a um lugar onde algo inesperado aconteceu — e que, de maneira estranha, o fez se sentir visto.
Assim que cruzou o salão, percebeu que a música daquela noite era mais animada, mas ninguém parecia animado de verdade. As luzes piscavam com preguiça. As mulheres circulavam com o cansaço nos ombros, o tipo de cansaço que ninguém comenta, mas que todo mundo carrega.
Ruth apareceu no corredor, arrumando o cabelo com um grampo improvisado. Quando viu Edu, arqueou uma sobrancelha, surpresa.
— Você voltou.— Voltei — ele respondeu, sem saber se justificava ou se só admitia.Ela cruzou os braços, avaliando-o como quem mede intenção.— Veio beber café ruim de novo?— Dessa vez eu trouxe o meu — disse ele, erguendo uma sacolinha.Ruth soltou uma risada longa, muito sincera.— Então tá. Vamos à cozinha gourmet do estabelecimento — disse.
A cozinha estava igual: cafeteira cansada, azulejos trincados, uma luz que piscava no ritmo de uma tosse. Mas, curiosamente, não havia ninguém lá. Ruth pegou duas canecas — as mesmas descombinadas da outra vez — e colocou água para esquentar.
— Você trouxe café de verdade? — ela perguntou, desconfiada.— Trouxe. Em pó, inclusive. Pra não dizer que não evoluí.— Olha ele — provocou — quase um barista existencial.
Enquanto preparava o café com cuidado, Edu percebeu que as mãos de Ruth tremiam levemente. Não parecia nervoso. Era... desgaste. Como se o corpo dela carregasse horas a mais do que o relógio marcava.
— Noite difícil? — ele perguntou.Ela deu de ombros.— Noites difíceis são meu turno normal.Edu não insistiu. Ofereceu a xícara a ela, que aceitou com um suspiro.— Nossa… esse café é realmente bom — ela disse, surpresa. — Vou me sentir até gente tomando isso.— Você é gente, Ruth.Ela ergueu os olhos. Não de forma dramática, mas de forma... longa. Como se estivesse desacostumada a ouvir isso.
Tomaram o café em silêncio por alguns minutos. Não era um silêncio constrangedor, mas daqueles que pedem coragem para serem quebrados. E, dessa vez, foi ela quem quebrou:
— Edu… por que você realmente voltou?Ele respirou fundo.— Não sei. Talvez porque… aquela noite não me saiu da cabeça. Você não me tratou como alguém perdido. Me tratou como alguém… desalinhado. E isso fez diferença. Talvez porque...
Ela apoiou os cotovelos na mesa, pensativa e o interrompeu.— As pessoas acham que a gente aqui só escuta pedidos de fantasia. Mas o que mais escuto é dor. É medo. É solidão. Às vezes, tudo que alguém quer é ser tratado como pessoa. Parece pouco, mas não é.
Edu a observou. Pela primeira vez, reparou nos detalhes que não vira antes: uma marca roxa discreta perto do ombro, um corte quase cicatrizado no pulso, os olhos que sorriam menos do que deveriam.— E você? — ele arriscou. — Quem te trata como pessoa?
Ruth deu uma risada abafada, quase incrédula.— Você tá querendo que eu chore aqui? No meio do meu expediente?— Não quero que você chore. Só quero… ver você. Sem máscara. Se deixar.Ela desviou o olhar, mexendo na xícara vazia.— Sabe o que é engraçado? — ela disse. — Todo mundo acha que mulher da vida tem o coração blindado. Que a gente sente menos, espera menos, sofre menos. “Acostumada com tudo”, dizem. Mas ninguém se acostuma com tudo, Edu. Tem dias que tudo pesa. Tem dias que eu saio daqui querendo esquecer que existo.Edu sentiu o peito apertar. Mas não por pena — por reconhecimento. Não por romantização — por humanidade.— O que você queria fazer se não estivesse aqui? — ele perguntou.
Ela pensou por alguns segundos, como quem acessa uma gaveta antiga.— Eu queria abrir uma confeitaria. Sério. Aprendi a fazer bolo cedo, com a minha avó. Ela dizia que açúcar também cura dor. Eu acreditava. Ainda acredito um pouco.Edu sorriu.— Você tem nome de mulher forte e sonho de quem ainda guarda beleza.Ela franziu a testa, tentando disfarçar o impacto.— Você fala umas coisas perigosas, Edu. Vai acabar me fazendo acreditar.— Talvez seja isso mesmo que eu quero.
O corredor chamou Ruth de volta — literalmente, com a voz de uma das colegas dizendo que um cliente a esperava. Ela se levantou devagar, como quem retorna ao peso depois de um minuto de folga na gravidade.Antes de sair, porém, parou diante dele.— Obrigada pelo café. E por… sei lá. Não tentar me consertar, nem me julgar.— Obrigado você — ele respondeu.
Ruth hesitou. O suficiente para que algo importante criasse forma no ar.— Se você voltar outra noite, não precisa trazer café. — Ela sorriu — Pode trazer bolo. Eu faço o café.Edu riu, e ela riu junto.
E, desta vez, ele não saiu dali carregando somente o próprio desalinhamento. Saiu carregando o dela também — como quem entende que a dor compartilhada não pesa o dobro, pesa metade.
E que, talvez, beleza seja isso: caber na vida do outro sem forçar a porta.
Jeff Soares

Músico
Jornalismo
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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