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Dezembro: A ditadura do Recomeço

Quando dezembro nos cobra mais do que entrega!

Dezembro: A ditadura do Recomeço
Imagem Internet

Todo ano é a mesma cena: dezembro chega andando devagar, mas carregando um megafone. Ele anuncia, com brilho nos olhos e tom professoral, que chegou a hora de perdoar, renovar, agradecer, recomeçar, desapegar, encerrar ciclos, abrir portas, selar conflitos. É como se, pela simples virada de um número no calendário, todos fôssemos obrigados a jogar uma luz dramática sobre nossas feridas e, de preferência, já sair delas curados — de roupa branca, taça na mão e sorriso instagramável.


Mas há algo profundamente incômodo nessa imposição coletiva de encerramento e renascimento. Como se a vida obedecesse ao calendário gregoriano, como se traumas respeitassem o Réveillon, como se a cura tivesse prazo de entrega.


A verdade é que dezembro cria uma espécie de fantasia emocional. Uma pressão velada que nos empurra para um estado de “bem resolvidos”, mesmo quando estamos longe disso. A cobrança para perdoar — seja o outro, seja a nós mesmos — vem embalada como sabedoria, mas muitas vezes funciona como atalho emocional, um jeito apressado de nos fazer encerrar o que ainda não foi elaborado. Perdão não acontece por decreto, e menos ainda por pressão social.

E é justamente em dezembro que essa pressão chega com força máxima.


É o mês em que as pessoas sentem obrigação de resolver tretas familiares que se arrastam há anos, como se jantar no Natal fosse terapia. É quando relacionamentos fracassados ressurgem tentando ganhar “última chance” porque a virada simboliza esperança — ainda que nada tenha mudado, a não ser a data. É quando nos olhamos no espelho e tentamos, quase desesperados, inventar uma versão mais bonita de nós mesmos, na tentativa de acreditar que o simples romper da meia-noite tem poder de resetar a vida.




Mas a renovação não funciona por varejo. E perdão não é gift card.


Existe um discurso enfeitado em dezembro que romantiza a ideia de “ciclos se fechando”, como se todo ciclo tivesse que se fechar exatamente agora. Acontece que alguns ciclos pedem descanso, pausa, análise. Outros se encerram em silêncio, no meio de um março qualquer. Alguns continuam abertos porque a gente ainda não tem ferramentas para fechá-los. E tudo isso é válido, humano, real — apesar de não caber nas legendas motivacionais do fim de ano.


A imposição do perdão em dezembro camufla uma verdade desconfortável: perdão exige tempo, coragem e maturidade emocional. Às vezes, perdoar agora seria apenas varrer para debaixo do tapete aquilo que nos machuca, esperando que a euforia da virada faça o resto. E, claro, não faz. Janeiro sempre chega cobrando a conta daquilo que empurramos.


O mesmo vale para a tal “renovação”. A pressão para começar tudo de novo — dieta, rotina, personalidade, vida — cria um sentimento de inadequação constante. Como se falhar fosse proibido no ano seguinte. Como se cada um de nós fosse responsável por se reconstruir anualmente como se reconstrói uma gaveta.


Mas renovação real não é espetáculo: é processo lento, privado, muitas vezes doloroso.


O que dezembro não nos conta é que não precisamos estar prontos. Não precisamos perdoar ninguém agora. Não precisamos renovar tudo agora. Não precisamos viver o fim do ciclo como uma obrigação emocional. Porque a vida é feita de "microfins" e "microcomeços" que atravessam os meses sem pedir aprovação ao calendário.


O ano pode até mudar, mas nós mudamos em ritmos muito mais complexos — e menos fotogênicos.


Talvez o grande desafio de dezembro seja justamente resistir à fantasia do “tudo resolvido”. Permitir-se continuar em processo. Aceitar que o que não cicatrizou não precisa fingir que cicatrizou. Reconhecer que perdão não acontece no grito da contagem regressiva. E que renovação não é traje obrigatório para entrar no ano seguinte.


No fim das contas, talvez a forma mais corajosa de encerrar um ano seja admitir que nem tudo se encerra — e tudo bem. O resto, o tempo trabalha. A gente também.







Ninha Sousa

Colunista

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