OPINIÃO - O Avanço da Pauta Conservadora é Ferida Aberta da Violência Contra A Mulher no Brasil
O futuro depende da coragem de encarar o óbvio!
Falar sobre o mapa da violência contra a Mulher no Brasil é, inevitavelmente, falar sobre política. E não apenas sobre políticas públicas, mas sobre o clima político que molda comportamentos, discursos e percepções. Nos últimos anos, o avanço da pauta da extrema direita no país não apenas agravou tensões sociais — ele também ajudou a legitimar, normalizar e até incentivar práticas misóginas que já existiam silenciosamente na cultura brasileira.
Não se trata de dizer que a violência contra a mulher nasceu com a extrema direita. Ela é estrutural, anterior, profunda e atravessada por inúmeras variáveis sociais. Mas o discurso político tem peso. E quando líderes, influenciadores e parlamentares com enorme alcance público tratam mulheres como inferiores, diminuem pautas femininas, relativizam agressões, desacreditam denúncias e ridicularizam movimentos de proteção, isso tem consequência direta no cotidiano de milhões de brasileiras.
A Retórica que Autoriza o agressor
Nos últimos anos, tornou-se comum ver figuras públicas zombando do feminismo, exaltando a “mulher obediente”, relativizando assédios e atacando a ideia de igualdade de gênero como se fosse uma ameaça à família. Esse ambiente discursivo produz efeitos reais. Ele reafirma o agressor em sua posição de poder e fragiliza a vítima, que se vê ainda mais isolada.
Quando um político diz que uma mulher “não merece” ser estuprada por ser “feia”, quando uma autoridade debocha de denúncias de assédio, quando parlamentares tentam desmontar políticas de proteção às mulheres ou dificultar o debate sobre violência de gênero nas escolas, o país recebe uma mensagem clara: a vida e a dignidade da mulher valem menos.
O Impacto no Debate Público
Parte do Brasil foi capturada por uma narrativa profundamente hostil aos direitos das mulheres. Essa narrativa demoniza qualquer política de gênero como “ideologia”, criminaliza debates educacionais e tenta deslocar o foco das vítimas para uma agenda moralista que nada resolve. Enquanto isso, os números de feminicídio, estupro e agressões disparam.
Essa movimentação política também gerou um ambiente de ódio digital contra mulheres que se posicionam publicamente — jornalistas, ativistas, influenciadoras, professoras. A violência virtual, sempre carregada de misoginia, aumentou exponencialmente, e muitas vezes transborda para a vida real.

Desmonte e Negligência Institucional
O avanço político de grupos ultraconservadores coincidiu com tentativas sistemáticas de enfraquecer estruturas de proteção: cortes orçamentários, sucateamento de políticas públicas, queda de investimentos em campanhas educativas e retrocessos no enfrentamento às desigualdades.
A violência contra a mulher não se combate apenas com leis — é preciso recursos, equipes, formação, capilaridade. E quando um governo ou um Congresso é pressionado por alas que consideram essas pautas “mimimi” ou “vitimismo”, o resultado é previsível: o Estado se ausenta, a violência ocupa o vácuo.
O Discurso Importa — e salva vidas
O Brasil não avançará no combate à violência contra a mulher enquanto parte significativa de seu ambiente político seguir tratando a pauta como inimiga ideológica. Respeitar mulheres, protegê-las, ouvir suas denúncias, discutir gênero nas escolas e fortalecer políticas públicas não deveria ser bandeira de esquerda: deveria ser um compromisso civilizatório.
Quando a extrema direita avança com discursos que diminuem, ridicularizam ou desumanizam mulheres, ela não apenas alimenta uma guerra cultural vazia — ela coloca vidas em risco. Ela encoraja comportamentos abusivos. Ela silencia vítimas. Ela normaliza o inaceitável.
O futuro depende da coragem de encarar o óbvio!
O mapa da violência contra a Mulher no Brasil expõe números cruéis, mas expõe também algo mais profundo: o quanto parte do país ainda resiste a reconhecer que a violência de gênero é um problema grave, urgente e político. E, enquanto certos discursos extremistas continuarem corroendo valores básicos de humanidade, empatia e igualdade, será impossível virar essa página.
A luta contra a violência de gênero exige Estado forte, políticas públicas eficientes e uma sociedade comprometida — mas exige também que o país rejeite, sem hesitação, qualquer projeto político que trate mulheres como alvo, ameaça ou propriedade.
Jeff Soares

Músico
Jornalismo
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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