Crônica – O Silêncio que Machuca
[...] posicionamento não é intromissão — é responsabilidade...
Na rua de trás, alguém discute. A vizinhança já sabe que, quando a voz dele sobe, ela encolhe. É um tipo de coreografia triste, ensaiada sem vontade, repetida sem plateia — exceto pelos ouvidos que fingem não ouvir e pelos olhos que fingem não ver.
E nós, homens, passamos. Passamos com pressa, com fones no ouvido, com a velha desculpa de que “não é problema meu”. Sim, nós carregamos essa herança maldita de um silêncio que se veste de neutralidade, mas que, no fundo, sustenta a violência como quem segura a porta aberta para um monstro passar.
O mundo sempre exigiu que fôssemos fortes. Mas talvez a maior força esteja exatamente no gesto que tantos evitam: se posicionar. Dizer ao amigo que aquela “brincadeira” não tem graça. Interromper o colega que chama a própria mulher de louca. Ligar para a polícia quando a discussão da casa ao lado vira ameaça. Reconhecer que a violência não começa no tapa — começa na palavra, no desdém, na risada cúmplice.
Há homens que dizem não saber o que fazer. Mas todos sabem. Sabem porque já presenciaram, já ouviram, já desconfiaram. O que falta não é conhecimento — é coragem. A mesma coragem que exigimos delas para denunciar, exigir e sobreviver.
Mas e nós? Vamos continuar exigindo heroísmo das mulheres enquanto nos escondemos na sombra da própria omissão?
A verdade é simples e bruta: quando um homem não se posiciona, outro homem se sente autorizado a continuar violentando. O silêncio masculino é o eco que reforça a violência. E cada vez que alguém se cala, uma mulher fica mais sozinha.
O que precisamos é de uma outra herança, outra coreografia: homens que aprendam a usar a voz não para dominar, mas para proteger. Homens que compreendam que respeito não é gentileza — é compromisso. E que posicionamento não é intromissão — é responsabilidade.
Talvez um dia, na rua de trás, ninguém precise mais encolher. Talvez a vizinhança deixe de ter medo do que escuta. E talvez nós, homens, possamos olhar uns para os outros sem o peso de saber que nossa covardia custou a vida ou a liberdade de alguém.
Até lá, que ao menos se comece a quebrar o silêncio. Porque, às vezes, a palavra que um homem diz — ou se recusa a dizer — pode salvar uma mulher que nunca saberá seu nome.
Jeff Soares

Músico
Jornalismo
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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