Opinião - A Hipocrisia Sertaneja
Tudo bem, se o bolso estiver cheio...
Na cidade pequena, onde o posto de saúde fecha às quatro porque não tem médico e a escola pinga mais que promessa de campanha, chega o caminhão do som. É dia de festa. Dia de sertanejo. Dia de milagre contábil.
O palco sobe rápido, mais rápido que as filas do SUS. A luz de LED custa o equivalente a meses de merenda escolar, mas ninguém reclama — afinal, alegria também alimenta, dizem, enquanto parte mastiga poeira. No camarim climatizado, o artista ensaia o discurso de sempre: contra o Estado atual, contra impostos, contra “mamatas”. Tudo muito coerente, exceto pelo detalhe de que o cheque, gordo e público, acaba de ser assinado pelo prefeito de uma cidade que não tem esgoto tratado.
É curioso como o dinheiro público, quando vira cachê sertanejo, muda de nome. Não é gasto: é investimento. Não é verba: é cultura. Não é Estado: é festa do povo. O mesmo povo que paga a conta e depois agradece pelo refrão fácil que fala de caminhonete, chifre e sofrimento — sofrimento este sempre muito bem remunerado.
Os discursos são afinados. No palco, entre um “modão raiz” e outro, o artista brada contra a Lei Rouanet, contra artistas “dependentes”, contra qualquer coisa que lembre política pública. A plateia vibra. A prefeitura também, principalmente porque ninguém pergunta por que um show custa mais do que a reforma da creche. É o liberalismo à moda caipira: privatiza o lucro, socializa o boleto e mantém o povo burro.
Esses sertanejos de extrema direita têm um talento raro: odeiam o Estado enquanto mamam nele com gosto. Criticam à atual Brasília, mas adoram a tesouraria municipal. Falam em meritocracia com o microfone pago à vista pelo orçamento da cidade mais pobre do mapa. São cowboys do capitalismo que fogem do mercado quando o mercado cobra ingresso.
No dia seguinte, a ressaca é geral. A praça volta a ser vazia, o hospital continua sem remédio, a estrada segue esburacada. Mas há um consolo: por algumas horas, a cidade se sentiu rica. Rica o suficiente para bancar quem diz que o problema do Brasil é justamente gastar dinheiro com o povo.
E assim segue a boiada sonora, passando por prefeituras quebradas, cantando liberdade patrocinada, enquanto o chapéu passa — não no público, mas no cofre público. Afinal, nada é mais sertanejo de extrema direita do que odiar o Estado… desde que ele pague o cachê em dia.
Por isso, SBT
Chaves e Chapolin no Especial de Fim de Ano!
Jeff Soares

Músico
Jornalismo
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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