Proibição Cotas Raciais em Santa Catarina
[...] negar as cotas raciais é negar a própria existência do racismo estrutural...
Existem decisões que são inaceitáveis. Elas atravessam a carne da história, reabrem feridas que nunca cicatrizam e dizem, em voz alta, quem pode e quem não pode ocupar os espaços de poder. A proibição das cotas raciais pela ALESC em Santa Catarina é uma dessas decisões. Não é neutra. Não é técnica. É profundamente simbólica, extrema e dolorosa.
Santa Catarina gosta de se apresentar como um estado moderno, europeu, desenvolvido. Mas por trás dessa narrativa cuidadosamente construída existe um silêncio antigo sobre a escravidão, sobre o genocídio indígena, sobre a violência contra a mulher, sobre o crescimento de células nazistas, sobre a exclusão sistemática da população negra. Um silêncio que agora se transforma em gesto político: negar as cotas raciais é negar a própria existência do racismo estrutural. É afirmar, sem pudor, que todos largam do mesmo ponto numa corrida em que alguns já nascem quilômetros à frente.
Cotas raciais não são privilégio. São ferramenta de um inicio de correção histórica. São uma tentativa — insuficiente — de equilibrar um jogo injusto desde a origem do Brasil. Quando se proíbe essa política pública, o recado é claro: o passado não importa, a desigualdade não importa, a cor da pele continua sendo um detalhe conveniente quando beneficia os mesmos de sempre.
Em um estado onde a população negra é frequentemente empurrada para as margens, invisibilizada nos espaços acadêmicos, políticos e econômicos, impedir cotas é aprofundar abismos. É fechar portas que mal haviam começado a se abrir. É dizer a jovens negros e negras que seu esforço individual nunca será suficiente para vencer um sistema que insiste em ignorá-los.

Deputado Marquito lidera campanha para vetar projeto que acaba com cotas em SC. - Foto: Jeferson Baldo/Agência AL
Há algo de cruel nessa decisão. Cruel porque finge igualdade onde há desigualdade. Cruel porque transforma meritocracia em palavra vazia, usada como escudo para manter privilégios intactos. Cruel porque escolhe não ouvir dados, histórias, corpos, trajetórias reais.
A proibição das cotas raciais em Santa Catarina não fala apenas sobre educação ou políticas públicas. Ela fala sobre medo. Medo de dividir espaços. Medo de rever a própria história. Medo de um futuro onde o poder tenha somente uma única cor.
Mas a história não se encerra em decretos ou decisões. Ela segue viva na resistência, na organização, na memória coletiva. Enquanto houver desigualdade, deve haver luta. E enquanto houver luta, nenhuma proibição será capaz de apagar o direito de existir, ocupar e transformar.
Negar cotas é tentar congelar o passado. Mas o futuro insiste em avançar — mesmo quando tentam barrá-lo sorrateiramente.
Jeff Soares

Músico
Jornalismo
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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