As Ruas, a MPB e o grito contra a anistia!
Quando a canção traz à tona a parede da memória!
As manifestações contra a PL da Dosimetria e anistia aos golpistas não foram apenas atos políticos. Foram, sobretudo, atos de memória. Em cada cartaz erguido, em cada passo dado pelas ruas, havia uma recusa coletiva ao esquecimento — esse velho aliado da injustiça. O Brasil voltou a dizer, em coro, que democracia não se negocia, não se relativiza, não se anistia.
E, como tantas vezes na nossa história, a música popular brasileira esteve lá. Não como trilha de fundo, mas como protagonista. A MPB — esse território onde dor e esperança aprendem a caminhar juntas — ocupou praças, palcos improvisados e grandes shows para lembrar que a cultura é um dos nervos centrais da democracia. Quando a política tenta se esconder atrás de discursos vazios, mentirosos e criminosos, a canção tem o poder de ir direto ao coração. Neste caso, trazendo à tona a parede da memória.

Os shows que acompanharam as manifestações foram mais do que apresentações artísticas. Tornaram-se assembleias emocionais. Vozes consagradas e novos artistas dividiram microfones e causas, cantando não apenas repertórios conhecidos, mas a urgência do agora. Canções que nasceram em tempos de chumbo reapareceram com força renovada, provando que o passado insiste em dialogar com o presente quando as lições não são aprendidas. Outras, recém-compostas, mostraram que há uma geração inteira disposta a transformar indignação em poesia e resistência.
No meio da multidão, era possível ver lágrimas e sorrisos coexistindo. Gente que cantava para não gritar. Gente que gritava cantando. A Música Brasileira cumpriu uma vez mais o papel que nenhum discurso institucional conseguiu cumprir sozinho: humanizar à luta. Traduzindo conceitos jurídicos e políticos — como golpe, anistia, responsabilização — em sentimentos compartilhados, em refrões fáceis de lembrar e difíceis de ignorar.

Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque no RJ - michelegomesph /@midianinja
Há algo profundamente democrático em um show que se transforma em ato. O palco deixa de ser pedestal e vira chão comum. O artista não fala “para” o povo, fala “com” o povo. E é nessa horizontalidade que a mensagem ganha força: anistiar golpistas é rasgar a história, é dizer às vítimas que a violência pode ser perdoada em nome da conveniência política. Para isso as canções estiveram lá, para lembrar em uníssono, que sem justiça não há conciliação verdadeira.
A presença da MPB nesses atos também desmonta uma falácia antiga: a de que cultura e política não se misturam. No Brasil, elas sempre se misturaram — porque a própria sobrevivência da cultura popular dependeu, muitas vezes, da coragem de enfrentar autoritarismos. Cada acorde tocado contra a anistia foi um gesto de compromisso com o futuro, uma recusa a repetir ciclos de impunidade.
Ao final dos shows, quando os aplausos se confundiam com palavras de ordem e esperança, ficou claro: aquelas manifestações não terminaram ali. Elas seguem ecoando nos fones de ouvido, nas rádios que não se venderam ao mercado, e, principalmente, na consciência coletiva. A MPB fez o que sempre soube fazer de melhor: transformou a indignação em canto, a memória em resistência e a democracia em algo vivo, pulsante, impossível de ser silenciado.
Porque, no Brasil, quando tentam calar a justiça e o povo, a música responde. E responde alto.
É preciso continuar. É preciso estar atendo e forte!
Jeff Soares

Músico
Jornalismo
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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