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BBB26: A Positividade Tóxica

A fantasia elitista e o ego que se disfarça de iluminação.

BBB26: A Positividade Tóxica
Foto: Reprodução/Instagram

A positividade exibida pela ex - participantes da edição de 2026  Aline Campos,  não foi apenas um traço de personalidade, é uma performance socialmente situada. Ela carregou um discurso que parece inofensivo, quase admirável, mas que se sustenta numa fantasia: a de que todos podem lidar com conflitos com a mesma leveza, o mesmo vocabulário emocional e o mesmo tempo para respirar antes de reagir.


Essa fantasia é elitista. Só consegue transformar tudo em aprendizado quem pode errar sem perder o chão. Só consegue atravessar o conflito com serenidade quem não vive sob ameaça constante, financeira, emocional, social. A calma permanente, vendida como maturidade, é muitas vezes um privilégio travestido de virtude universal.


Em um jogo, a “goodvibes” funciona como blindagem. Conflitos são espiritualizados, dores são relativizadas, reações intensas são lidas como falta de evolução. Quem explode vira desequilibrado. Quem se revolta vira imaturo. Quem não sorri, incomoda. A positividade tóxica não acolhe, hierarquiza.


Essa lógica se conecta diretamente a um outro fenômeno contemporâneo: o do autoconhecimento que, em vez de ampliar a escuta, fecha o mundo no próprio umbigo. Pessoas que estudam espiritualidade e mergulham em si mesmas com a promessa de “matar o ego”, mas acabam fazendo o caminho inverso: sofisticam o ego, refinam a arrogância, limpam a vaidade até que ela pareça virtude.




A frase resume tudo:

“Matei meu ego, agora sou melhor que todos vocês.”


Ela não costuma ser dita em voz alta, é encenada. No tom calmo. No sorriso compreensivo. No olhar que observa de cima. É o egocentrismo elevado à categoria de consciência. Quem sofre demais “não se trabalhou”. Quem reage com raiva “ainda está preso”. Quem confronta “não está no mesmo nível vibracional”. O outro deixa de ser humano e vira estágio inferior de evolução.


Esse tipo de espiritualidade não aproxima, separa. Não humaniza, classifica, divide, cria abismos. Não escuta, julga em silêncio. E, novamente, a classe atravessa tudo. Autoconhecimento exige tempo, acesso, dinheiro, linguagem. Quando isso vira régua moral, o privilégio é reinterpretado como mérito espiritual. A desigualdade vira falha individual. A dor vira falta de consciência.


No BBB26, Aline encarnou essa narrativa com perfeição: centrada, elevada, aparentemente acima do conflito. Mas o que pareceu equilíbrio pode ser apenas uma forma elegante de não se implicar. Uma paz que não se suja. Uma luz que não ilumina, ofusca, inibe tua humanidade, tua liberdade de ser falho.


Nem toda calma é maturidade. Nem toda espiritualidade é humildade. Nem todo discurso de cura é generoso. Às vezes, o ego não morreu. Ele só aprendeu a falar baixo, sorrir bonito e se chamar de evolução.


E talvez a pergunta mais honesta não seja quem está desequilibrado no jogo, mas quem pode ser inteiro num mundo onde só a leveza é permitida.






Tâmara Nunes

Colunista

Jornalismo/UCPel Poeta,

Artesã, Confeiteira

Taróloga 

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