Feminicídio Não é Caso Isolado: É Um Projeto Social Tolerado
Até quando?
Casos recentes de violência extrema contra mulheres voltaram a expor uma realidade que o Brasil conhece bem, mas insiste em tratar como exceção. A morte de Tainara Souza, de 31 anos, arrastada por quilômetros pelo ex-namorado na Marginal Tietê em São Paulo, e o assassinato de Letícia Foster, em Canguçu, morta pelo ex-companheiro, não são episódios desconectados. São expressões de um mesmo padrão de violência de gênero.
Em ambos os casos, o agressor é um ex-companheiro. O término da relação aparece como gatilho, mas não como causa. A raiz está em uma cultura que associa masculinidade à posse e interpreta a autonomia feminina como afronta.
Essa lógica não é recente nem individual. Ela é histórica. Ao longo de séculos, mulheres foram tratadas como propriedade, primeiro do pai, depois do marido. Em diferentes sociedades, foram privadas de direitos básicos, educadas para obedecer, servir e se submeter. O corpo feminino foi regulado, controlado e punido sempre que fugia do papel esperado. Essa herança atravessou gerações e se atualiza, hoje, em relações afetivas marcadas pelo controle, pelo ciúme e pela violência.
O feminicídio, definido em lei como o assassinato de mulheres em razão do gênero, raramente acontece de forma repentina. Ele é precedido por controle, ameaças, perseguição e violência psicológica. Ainda assim, esses sinais continuam sendo minimizados por familiares, instituições e pelo próprio sistema de Justiça, muitas vezes tratados como “problemas do casal”.
No caso de Tainara Souza, a violência foi pública, prolongada e brutal. Arrastada por quilômetros, ela não resistiu aos ferimentos e morreu. A forma do crime não deixa dúvidas sobre a intenção do agressor: não apenas matar, mas punir e desumanizar uma mulher que não obedeceu, que rompeu, que deixou de ser submissa. A exposição do corpo ao asfalto revela uma tentativa extrema de reafirmação de poder. Tainara deixou duas filhas, uma de 7 e outra de 12 anos.

Tainara Souza - Arquivo Pessoal/Instagram
Em Canguçu, Letícia Foster de 37 anos já possuía medida protetiva contra o ex-companheiro quando foi morta. O dado expõe uma das questões mais sensíveis no enfrentamento ao feminicídio no Brasil: a distância entre a existência da lei e sua eficácia prática. Mesmo sob restrição judicial, mulheres continuam sem suporte efetivo, sem monitoramento contínuo do agressor e sem garantias reais de segurança. A medida protetiva, muitas vezes tratada como solução final, não impede a violência letal quando não é acompanhada de fiscalização rigorosa e políticas de proteção integradas.

Letícia Foster - Arquivo Pessoal/Instagram
A tragédia não se encerra no crime. Ela se prolonga na vida dos dois filhos deixados por ambas as vítimas, que vão crescer sem a mãe, e vão carregar as marcas de uma violência que poderia( e deveria)ter sido evitada. O feminicídio, nesses casos, é também uma violência contra a infância e adolescência.
O Brasil figura entre os países com maiores índices de feminicídio no mundo. Mesmo com legislação específica, como a Lei Maria da Penha, a resposta institucional segue insuficiente. Medidas protetivas são concedidas, mas frequentemente não fiscalizadas; denúncias são relativizadas; e o risco real enfrentado por mulheres é subestimado.
A recorrência de ex-companheiros como autores desses crimes reforça a necessidade de políticas públicas que atuem antes da violência letal. Mas também exige um enfrentamento cultural profundo. Enquanto homens forem socializados para acreditar que têm direito sobre o corpo, a vida e as decisões das mulheres, o término de uma relação continuará sendo interpretado como afronta, e a violência, como resposta.
Tratar cada feminicídio como tragédia isolada é uma forma de omissão. O que se repete no Brasil é um padrão sustentado por uma herança histórica de machismo, pela tolerância social à violência e pela falha do Estado em proteger mulheres que tentam romper ciclos de dominação.
Com vítimas fatais e outras que ficam para sempre em casa com lembranças de um rosto familiar, o rosto da mãe, filha, irmã, tia, amiga, neta, nora, ou, por fruto do machismo e da posse de homens doentes, nunca mais poderão tocar.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel Poeta,
Artesã, Confeiteira
Taróloga e Colunista
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