A Carta de Demissão do Príncipe Encantado
[...] percebi que esperar pelo príncipe é vibrar na carência.
Sobrinhos, a Titia precisa contar uma novidade: hoje, eu demiti oficial e irrevogavelmente o Príncipe Encantado.
Pode parecer duro, mas a ficha caiu. Parem para pensar comigo: o que é que um príncipe faz? Ele escala torres, mata dragões e resgata donzelas indefesas que não sabem sair do lugar sozinhas. Ele busca alguém que precise dele para sobreviver.
E foi aí que eu olhei para a minha vida.
Eu não moro numa torre fria e isolada. Eu moro num castelo que eu mesma construí, tijolo por tijolo, com mais de 20 anos de trabalho, noites de estudo e muita dedicação. O meu "reino" — a minha clínica, a minha casa, a minha história — é sólido. Eu não tenho dragões para serem mortos; eu já domei os meus há muito tempo. Eles agora comem na minha mão.
Então, para que é que eu quero um príncipe? Onde é que ele ia amarrar o cavalo branco na vida de uma mulher que já tem o seu próprio motor?
Eu percebi que esperar pelo príncipe é vibrar na carência. É dizer ao Universo: "Eu sou incompleta, venha me salvar". E, como a física quântica não falha, a carência atrai mais falta ou gente que quer tirar vantagem dessa fragilidade.
Por isso, mudei a frequência.
A vaga agora não é para um salvador. A vaga é para um Rei. Porque um Rei não se intimida com uma Rainha. Ele não quer salvar; ele quer reinar junto. Ele é gentil, é inteligente e tem a sua própria força. Ele olha para tudo o que construí e não sente medo, sente admiração. Ele não chega para preencher um vazio, mas para transbordar o que já está cheio. Sobrinhos, aprendam com a Titia: ninguém vem salvar vocês. E que bom! Porque quem se salva, torna-se soberano da própria vida.
Arrumem a coroa, levantem a cabeça e parem de olhar para a janela à espera do resgate. O trono é vosso. E o Rei? Ah, ele aparece quando percebe que ao seu lado existe uma mulher, e não uma menina.
Beijo da Titia (a Rainha desta porra toda)!
Edna Loreto

Médica Veterinária
Colunista
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