Epidemia de Feminicídios: O Rio Grande do Sul em Luto e Luta
[...] Vencer o feminicídio, infelizmente, tem nos exigido que a memória das que partiram se transforme na urgência de proteção para as que ficam.
O feminicídio não é um incidente isolado, nem um crime passional movido por emoções súbitas. É o desfecho brutal de um ciclo de abusos que se inicia no controle psicológico, escala para a agressão física e termina com a morte da mulher pelo simples fato de ser mulher. No Brasil, vivemos uma contradição: possuímos uma das legislações mais avançadas do mundo, mas os índices de feminicídios desenham uma curva ascendente de horror, consolidando uma verdadeira epidemia sociocultural.
No dia vinte e oito de janeiro (28), às 18h, o silêncio da Praça Coronel Pedro Osório, em Pelotas-RS, foi rompido por um chamado à memória. Ao redor do Banco Vermelho, símbolo mundial do combate ao feminicídio, uma vigília reuniu coletivos feministas e movimentos sociais. O ato integrou uma mobilização estadual e com foco também na Praça da Matriz, em Porto Alegre para denunciar a escalada da violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul.
Os números deste início de ano são devastadores. Somente em janeiro de 2026, onze feminicídios foram registrados no RS, superando o total do mesmo período no ano anterior. A média é aterradora: quase três mulheres mortas por semana. Levantamentos da Secretaria de Segurança Pública (SSP/RS) revelam falhas críticas na rede de proteção como: Invisibilidade Institucional, onde 94,9% das vítimas não possuíam Medida Protetiva de Urgência vigente e Subnotificação, onde 74,7% das mulheres assassinadas não haviam registrado qualquer ocorrência policial prévia contra o agressor.

Imagem - Matheus Leal/Sul 21
O agressor, em sua maioria, é aquele que dividiu o teto e a intimidade com a vítima, transformando o lar no local mais perigoso para as mulheres. Essa realidade é alimentada por uma herança patriarcal que enxerga o corpo feminino como propriedade, uma mentalidade agravada por recortes de raça e classe. Mulheres negras e moradoras de periferias enfrentam as maiores barreiras para acessar a justiça, tornando-se as principais vítimas da negligência estatal.
A vigília em Pelotas-RS não foi apenas um luto, mas um protesto contra a inoperância do Estado. As manifestantes cobraram medidas concretas: fortalecimento real das políticas de prevenção, acolhimento estruturado e uma rede de atendimento que funcione antes do "ponto de não retorno". Quando a sociedade silencia diante de um "conflito de casal" e o Estado falha na fiscalização, a impunidade torna-se o combustível para o próximo crime.
Vencer o feminicídio, infelizmente, tem nos exigido que a memória das que partiram se transforme na urgência de proteção para as que ficam.
Roberta Luzzardi

Atua na Secretaria de Políticas
para as Mulheres de Pelotas/RS.
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