O Amor Como Um Ato Revolucionário
[...] Quando uma mulher começa a questionar a monogamia, ela não está só falando de sexo. Está falando de tempo, de trabalho, de autonomia, de cuidado, de exaustão.
Sou mãe solo. E isso, por si só, já é uma tese política. Não porque a maternidade me torne automaticamente mais consciente, mas porque ela me obriga a enxergar, todos os dias, a engrenagem real que sustenta o mundo: trabalho não remunerado, amor como obrigação, afeto como recurso explorável.
A monogamia não é só um modelo afetivo. É uma tecnologia social. Ela organiza heranças, controla corpos, distribui culpas e garante que a maior parte do trabalho invisível continue sendo feito por mulheres — de graça. Silvia Federici já explicou: o capitalismo só funciona porque alguém cozinha, limpa, cuida, escuta, amamenta e sustenta emocionalmente a vida sem receber por isso. A família nuclear monogâmica é o dispositivo perfeito para esse arranjo.
Na prática, a monogamia beneficia mais os homens do que as mulheres. Para eles, costuma significar estabilidade emocional, cuidado constante e validação social. Para nós, frequentemente significa sobrecarga, renúncia, culpa e solidão. A famosa “parceria” raramente é simétrica quando existe maternidade, diferença salarial e uma cultura inteira que naturaliza o abandono paterno como desvio individual, e não como estrutura.
O pai ausente não é um acidente: é um padrão socialmente tolerado. Enquanto isso, a mulher que cria sozinha é romantizada como guerreira, quando na verdade está sendo empurrada para uma jornada interminável. Tudo isso sem salário, sem aposentadoria, sem descanso e sem rede.
A monogamia se sustenta também no mito da posse. “Meu” parceiro, “minha” família, “meu” amor. Como se pessoas fossem propriedades afetivas. Como se o ciúme fosse prova de amor e não herança direta de uma lógica escravocrata: controlar o outro para garantir exclusividade de uso, de corpo, de tempo e de energia. Não é à toa que o vocabulário amoroso é cheio de termos patrimoniais: conquista, fidelidade, traição, contrato, dever.
Bell Hooks dizia que a maioria das pessoas não foi educada para amar, mas para negociar poder. E isso explica por que tantos relacionamentos são baseados mais em medo de perda do que em desejo real de presença. A monogamia, do jeito que é praticada, muitas vezes não nasce do amor, mas do pânico: de ficar só, de não ser escolhida, de não ser suficiente.

A não monogamia, pra mim, não é sobre acumular parceiros. É sobre desmontar a lógica da escassez afetiva. É recusar a ideia de que uma única pessoa precisa suprir todas as nossas demandas emocionais, sexuais, intelectuais e espirituais. É entender que rede de apoio é mais revolucionária do que casal. Que comunidade sustenta mais do que romance.
Audre Lorde falava do erótico como força vital, não como mercadoria. Mas o capitalismo transformou até o amor em produto: aplicativos, performances, padrões, metas de relacionamento. A monogamia vira mais uma forma de produtividade emocional: ser boa parceira, boa mãe, boa mulher, tudo ao mesmo tempo, sem falhar, sem reclamar, sem desaparecer.
Quando uma mulher começa a questionar a monogamia, ela não está só falando de sexo. Está falando de tempo, de trabalho, de autonomia, de cuidado, de exaustão.
A revolução nos afetos começa quando a gente entende que amor não é prisão, não é contrato de exclusividade, não é prova de sacrifício. Amor é circulação. É cuidado distribuído. É responsabilidade coletiva. É parar de organizar a vida em torno de um homem e começar a organizá-la em torno da vida.
Não é coincidência que mulheres, mães solo, pessoas "queer" e "racializadas" estejam na linha de frente dessas discussões. Somos nós que sempre vivemos fora do modelo ideal. Somos nós que sustentamos o mundo sem nunca ter sido o centro dele.
Questionar a monogamia não é destruir o amor. É tentar, pela primeira vez, praticá-lo fora da lógica da posse, da dívida e da exploração. É imaginar vínculos que não reproduzam, em escala íntima, a mesma estrutura que nos esgota em escala social.
No final, é isso: se o modo como a gente ama nos adoece, nos sobrecarrega e nos afasta de nós mesmas, isso não é amor. É a lógica da exploração operando no campo mais íntimo da vida, travestida de vínculo afetivo.
Amanda Beatrice

Colunista
Oraculista
Apresentadora
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