Ewé Ìwòsàn: Hortos Medicinais, Ancestralidade e Sustentabilidade Urbana
[...] tanto da terra quanto do povo — reside no equilíbrio respeitoso entre o homem e a flora.
O projeto Ewé Ìwòsàn (Folhas que Curam) surge como uma resposta estratégica e sensível à necessidade de integrar a sabedoria ancestral das comunidades de Matriz Africana com as políticas contemporâneas de preservação ambiental em Pelotas/RS. Mais do que a simples implementação de canteiros, a iniciativa propõe a ressignificação dos terreiros como nódulos de biodiversidade e educação ecológica, fortalecendo o conceito de soberania etnobotânica no espaço urbano.
O Sagrado e a Biodiversidade
Para as religiões de Matriz Africana, a natureza não é um recurso, mas uma extensão da própria divindade: "Sem folha não há Orixá". O projeto reconhece essa interdependência ao transformar os espaços rituais em hortos de plantas medicinais e litúrgicas. Ao utilizar o Horto Municipal de Pelotas e hortas comunitárias como fornecedores de mudas, o projeto cria um fluxo de preservação de espécies que são, muitas vezes, raras no contexto urbano, garantindo que o patrimônio genético e cultural dessas plantas seja mantido vivo pelas mãos de quem as cultua.
Gestão de Resíduos e Ciclos de Vida
Um dos pilares centrais do Ewé Ìwòsàn é a gestão ambiental de resíduos orgânicos. Através da implementação de sistemas de compostagem nos terreiros, o projeto fecha o ciclo da matéria orgânica:
* Redução de Impacto: Diminui o volume de resíduos destinados aos aterros sanitários municipais.
* Fertilidade Natural: Transforma o que seria "lixo" em adubo rico para a manutenção dos próprios hortos agroecológicos.
* Educação Ambiental: Promove a prática da sustentabilidade cotidiana, alinhada às diretrizes das Secretarias de Qualidade Ambiental (SQA).

Impacto Social e Políticas Públicas
A articulação com a SQA posiciona os terreiros como parceiros estratégicos na construção de uma cidade mais resiliente. Ao adotar modelos agroecológicos, estas comunidades tornam-se multiplicadoras de conhecimento sobre segurança alimentar e saúde pública, oferecendo à vizinhança um exemplo prático de qualidade de vida e conservação.
O projeto Ewé Ìwòsàn, portanto, não apenas preserva a ancestralidade; ele a projeta para o futuro. Ao unir o saber dos antigos com as técnicas de manejo ambiental moderno, Pelotas reafirma seu compromisso com a diversidade religiosa e a proteção dos ecossistemas urbanos, provando que a cura — tanto da terra quanto do povo — reside no equilíbrio respeitoso entre o homem e a flora.
Nice de Oyá
Ionice Beatriz Ferreira

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