Ensaios Sobre Estar Viva #1
[...] Realmente, o ano só começa depois do carnaval.
Tem uma coisa curiosa nesse intervalo entre o fim de um ano e o começo do outro. “Calendaricamente”, tudo muda no dia 31 de dezembro. Na prática, quase nada muda de verdade. É como se o tempo entrasse num modo de suspensão. A gente faz promessas, listas, resoluções, mas o corpo ainda está vivendo o capítulo anterior. A cabeça já quer futuro, mas a alma ainda está terminando de digerir o passado.
Esse período não é começo. É travessia.
Psicologicamente, é quando o sujeito está entre narrativas: a história antiga já não explica mais quem ele é, mas a nova ainda não ganhou forma suficiente pra ser habitada. Por isso dá essa sensação estranha de cansaço sem motivo, sensibilidade à flor da pele, necessidade de silêncio, de reorganizar, de ficar meio fora do mundo.
Simbolicamente, é um tempo de iniciação invisível. As coisas importantes não estão acontecendo fora, em eventos, mas dentro, em microrrupturas: percepções que mudam, afetos que se deslocam, desejos que perdem sentido. É quando a gente percebe que não quer mais viver do mesmo jeito, mas ainda não sabe exatamente como quer viver.
E isso não é indecisão. É gestação.
O problema é que o calendário exige performance de recomeço, enquanto o psíquico está pedindo luto, integração, digestão. resultado: culpa por não estar “produzindo”, ansiedade por não estar “definindo”, e uma pressão silenciosa pra parecer renovado quando, na verdade, se está em reconstrução.
Talvez por isso exista um saber popular tão preciso e tão verdadeiro: ninguém começa nada de verdade em janeiro. Janeiro é um corredor. Fevereiro ainda é aquecimento. Só depois do excesso, do caos, da catarse coletiva, é que o corpo finalmente aterrissa no presente.
Realmente, o ano só começa depois do carnaval.
Amanda Beatrice

Colunista
Oraculista
Apresentadora
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