Ensaio Sobre Estar Viva #2: Espiritualidade Como Posição Política
[...] permanecer viva, inteira e consciente...
Alquimia Selvagem não é um conceito estético. É um posicionamento.
Quando eu falo em estar viva, não estou falando apenas de sobrevivência biológica. Estou falando de consciência. De escolha. De recusa. Em um mundo que tenta constantemente anestesiar mulheres, espiritualidades não hegemônicas e corpos que não cabem no padrão, permanecer fiel ao seu caminho é um ato político. A tradição europeia definiu alquimia como a transformação do chumbo em ouro. Essa metáfora foi absorvida pelo discurso contemporâneo como símbolo de superação individual. Mas a alquimia que me interessa não é individualista, nem abstrata. Ela é encarnada. Ela acontece no corpo, no território e na memória.
Estar viva é não aceitar a colonização do próprio espírito. A colonização não é apenas geográfica ou histórica. Ela também é simbólica. Ela determina quais espiritualidades são legítimas, quais saberes são reconhecidos, quais práticas são chamadas de ciência e quais são chamadas de superstição. Ela transforma cosmologias vivas em “folclore” e espiritualidades ancestrais em “tendência”.
Quando eu falo de medicinas da floresta, não estou falando de consumo espiritual. Estou falando de relação ética. A floresta não é cenário para experiências individuais de expansão de consciência. Ela é mestra. Ela é sistema vivo. Ela é território com memória. Reduzir a floresta a substância é repetir a lógica extrativista que marcou a história colonial: retirar, consumir, exibir. Submeter-se à pedagogia da floresta é outra coisa. É reconhecer limite. É reconhecer reciprocidade. É reconhecer que não há cura sem responsabilidade.
Estar viva, nesse contexto, significa resistir à mercantilização da espiritualidade.

A indústria cultural transformou arquétipos espirituais em identidade de consumo. A “bruxa”, por exemplo, tornou-se estética. Tornou-se produto. Tornou-se performance desvinculada de território, de ancestralidade e de contexto histórico. Mas espiritualidade, para quem vem de territórios latino-americanos, indígenas e afro-diaspóricos, não é fantasia. É estratégia de sobrevivência.
Eu não reivindico espiritualidade como marca pessoal. Eu a reivindico como herança. Como memória coletiva. Como prática política de descolonização do pensamento.
Descolonizar o espírito é interromper narrativas que dizem que apenas o saber europeu é racional, que apenas determinadas religiões são legítimas, que apenas certas formas de fé são aceitáveis. É romper com a ideia de que espiritualidade precisa ser higienizada para ser respeitável.
Estar viva é não suavizar a própria força para caber em moldes importados. É entender que o corpo é território político. Que a memória é território político. Que a linguagem é território político. Por isso, Alquimia Selvagem não é metáfora. É método de sobrevivência. É integrar dor e potência sem negar nenhuma das duas. É transformar experiência em consciência crítica. É recusar a colonização simbólica do próprio imaginário. E é desse lugar que nasce Alquimia Verbal.
Se a alquimia selvagem acontece no corpo, a alquimia verbal acontece na palavra. A palavra organiza o mundo. A palavra nomeia a opressão. A palavra cria possibilidade de ruptura.
não apenas existir — mas existir com lucidez.
Não apenas sentir — mas compreender o que molda o que sentimos.
Não apenas acreditar — mas escolher em que estruturas espirituais e políticas queremos nos sustentar.
Minha espiritualidade não é fuga da realidade. É forma de enfrentá-la. E permanecer viva, inteira e consciente, é a minha posição política.
Amanda Beatrice

Colunista
Apresentadora
Comentários (1)
Que massa, texto muito lúcido e necessário! A minha frase revolucionária agora será "Descolonize seu Espírito!" Haux haux!
3 meses atrás