Quaresma: O Momento do Resguardo
[...] Talvez a maior lição esteja justamente aí: cada tradição entende o tempo à sua maneira.
Quando o calendário anuncia a Quaresma, muita gente associa imediatamente o período à tradição da : quarenta dias de recolhimento, jejum e reflexão que antecedem a Páscoa. Mas, para quem vive as religiões de matriz africana no Brasil, esse tempo ganha outras camadas — menos institucionalizadas, porém igualmente profundas. A Quaresma, dentro das Religiões de Matriz Africana , não é uma obrigação litúrgica universal, mas é um período que atravessa práticas, energias e rotinas dos terreiros de forma muito particular.
É impossível falar sobre isso sem reconhecer que as Religiões de Matriz Africana no Brasil se desenvolveram em diálogo — muitas vezes forçado — com o catolicismo. Durante a escravização, homens e mulheres africanos precisaram ocultar seus Orixás sob a imagem de santos católicos para manter vivas suas crenças. Esse processo de sincretismo deixou marcas profundas. Assim, mesmo que a Quaresma não seja um conceito originalmente africano, ela passou a influenciar o calendário espiritual de muitos terreiros.
Para parte das casas de Religião, a Quaresma é vista como um período de maior recolhimento energético. Não necessariamente por uma adesão à doutrina católica, mas pela compreensão de que o campo espiritual coletivo se modifica. É comum que alguns Terreiros reduzam festas públicas, evitem grandes obrigações ou priorizem rituais internos. Há quem interprete o período como tempo de introspecção, de fortalecimento da cabeça (Ori), de cuidado com o silêncio e com a palavra.
Muitas casas também optam por diminuir atendimentos ou suspender determinadas giras, sobretudo aquelas consideradas mais “abertas” energeticamente. Não se trata de medo, mas de respeito à dinâmica espiritual que, segundo dirigentes, se torna mais densa nesse intervalo. Algumas linhas de trabalho são preservadas; outras entram em pausa. Cada Terreiro, como sempre, decide a partir de sua tradição e orientação espiritual.
É importante dizer: não existe uma regra única. Diferentemente da estrutura centralizada do Catolicismo , as Religiões de Matriz Africana são descentralizadas. Cada casa tem autonomia, cada liderança espiritual interpreta o tempo a partir de sua ancestralidade. E é justamente nessa pluralidade que reside sua força. Mas há também uma dimensão simbólica que atravessa tudo isso. A Quaresma fala de recolhimento. E recolhimento é algo profundamente presente nas cosmologias africanas. O silêncio, o resguardo, o cuidado com o corpo e com a palavra fazem parte da ética do Axé. O tempo não é apenas cronológico — é energético. Há momentos de expansão e há momentos de contração. Saber reconhecer esses ciclos é sabedoria ancestral.

Para pessoas de Religiões de Matriz Africana, a Quaresma também pode ser um período de enfrentamento social. Ainda vivemos em um país onde o racismo religioso é uma realidade. Enquanto a tradição cristã ocupa o espaço público com naturalidade, práticas afro-brasileiras seguem sendo alvo de preconceito. Assim, atravessar a Quaresma pode significar, para muitos, reafirmar sua fé sem se deixar engolir pela narrativa dominante.
Há, ainda, quem escolha viver esse período como ponte inter-religiosa. Muitos praticantes foram criados em famílias católicas e mantêm vínculos afetivos com ambas as tradições. O Brasil é, historicamente, território de misturas. Para essas pessoas, a Quaresma pode ser tanto um tempo de introspecção cristã quanto de fortalecimento do axé — sem contradição, mas com consciência histórica.
No fundo, o que a experiência da Quaresma revela para as Religiões de Matriz Africana algo maior: a capacidade de adaptação sem perda de essência. Sobreviveram à escravidão, à criminalização, à perseguição policial, às tentativas de apagamento cultural. Aprenderam a dialogar com o calendário dominante sem abrir mão da própria cosmologia. Se para alguns a Quaresma é jejum de carne, para outros pode ser jejum de conflito, de dispersão, de palavras desnecessárias. Pode ser tempo de cuidar do Ori, de ouvir mais os mais velhos, de fortalecer a comunidade do Terreiro. Pode ser pausa estratégica antes da retomada das grandes festas, dos toques, das celebrações públicas.
Talvez a maior lição esteja justamente aí: cada tradição entende o tempo à sua maneira. E reconhecer isso é também um exercício de respeito religioso. A Quaresma, vista a partir das religiões de matriz africana, deixa de ser apenas um período do calendário cristão e se transforma em mais um capítulo da complexa história espiritual brasileira — uma história feita de resistência, sincretismo, memória e, acima de tudo, ancestralidade viva.
Ninha Sousa

Colunista
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