Branquitude e Interseccionalidade: Do Privilégio à Prática Antirracista
[...] Reconhecer o privilégio não é sobre cultivar culpa, mas sobre assumir responsabilidade política...
Para compreender o feminismo interseccional, é preciso, antes de tudo, desnaturalizar a branquitude. Historicamente, a identidade branca foi construída como o "padrão universal" de humanidade, um cenário onde o homem branco ocupa o topo da hierarquia e a mulher branca é estabelecida como o modelo de feminilidade a ser alcançado ou protegido. Quando o movimento ignora o fator racial, ele limita sua luta à conquista de direitos para a mulher branca em paridade com o homem branco, mantendo intactas as estruturas que operam mulheres negras, indígenas e outras identidades racializadas. Nesse contexto, a interseccionalidade surge para explicar que as opressões de gênero, raça e classe não operam em filas separadas; elas se cruzam e criam realidades específicas. Sem o exame crítico da branquitude, o feminismo corre o risco de ser inerentemente excludente e insuficiente.
Reconhecer essa estrutura exige que mulheres brancas deixem de ser "protagonistas por padrão" e passem a adotar práticas ativas de desconstrução. Ser antirracista no feminismo vai além de "não ser racista"; exige uma mudança de postura estrutural, a começar pelo entendimento do Lugar de Fala. Isso significa compreender que a cor da pele garante acessos e seguranças que não são universais. Reconhecer o privilégio não é sobre cultivar culpa, mas sobre assumir responsabilidade política: não quer dizer que a mulher branca não possa falar sobre o tema, mas que deve reconhecer que não sente a mesma opressão em sua vivência.

Foto: Ary Marciano
Essa transformação exige, simultaneamente, a descentralização do saber e o apoio efetivo às lideranças negras. É fundamental questionar por que as referências de beleza, intelecto e comportamento no movimento ainda são majoritariamente eurocêntricas. Praticar o antirracismo significa ceder espaços de tomada de decisão, garantindo que mulheres negras ocupem os microfones e as posições de poder (não se trata de "dar voz"), pois elas já a possuem, mas de garantir o espaço para que sejam ouvidas.
Além disso, é urgente a interrupção dos "pactos de silêncio", questionando o pacto narcísico da branquitude, que ocorre quando pessoas brancas se calam diante do racismo de seus pares para manter o conforto social ou a coesão do grupo. Essa postura deve se refletir também na divisão de recursos e visibilidade, tanto no ativismo quanto no mercado de trabalho, através da redistribuição real de oportunidades e orçamentos para projetos liderados por mulheres negras. Afinal, um feminismo que não questiona a branquitude é um feminismo incompleto. Ele pode até mudar a vida de algumas mulheres, mas mantém a estrutura de poder que desumaniza a maioria delas.
Conhecer a branquitude é, portanto, a ferramenta que permite transformar a empatia em ação política, garantindo que a libertação de uma mulher não seja construída sobre a opressão de outra.
Roberta Luzzardi

Educadora
Defensora do Feminismo Interseccional
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