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Ensaio Sobre Estar Viva #3

Maternidade e Estrutura Social

Ensaio Sobre Estar Viva #3
Imagem Internet/Unsplash

Eu não me tornei mãe apenas de um filho (In memoriam).

Eu me tornei mãe dentro de uma estrutura social específica.

E foi isso que me fez entender que maternidade não é apenas um vínculo afetivo. É uma posição política.


Maternidade implica assumir responsabilidade contínua por outro ser humano. Essa responsabilidade não é intermitente. Ela não funciona por turnos. Não existe “folga psíquica”. Cada decisão, omissão ou erro tem consequência concreta na vida de alguém que depende de mim. Isso altera completamente a lógica de existência.


Pessoas sem filhos vivem outra relação com o tempo e com o risco. O tempo é mais flexível. O erro é mais reversível. O cansaço pode ser compensado com descanso real. Isso não é melhor nem pior. É estruturalmente diferente. O problema começa quando essa diferença não é reconhecida socialmente. A sociedade é organizada a partir da lógica do adulto autônomo, não da lógica de quem cuida.


Horários de trabalho não consideram rotina infantil. A produtividade esperada ignora interrupções constantes. A vida social é pensada para quem pode sair sem calcular impacto. A estrutura econômica pressupõe disponibilidade integral. Quem cuida precisa se adaptar a esse modelo — nunca o contrário.


No entanto, o cuidado é a base que sustenta o próprio sistema.

Sem cuidado não há formação psíquica estável.

Sem cuidado não há trabalhador funcional.

Sem cuidado não há renovação social.


Na teoria de Sigmund Freud, a mãe representa o primeiro vínculo do sujeito com o mundo. Em Donald Winnicott, aparece a ideia de “mãe suficientemente boa”, aquela que sustenta e progressivamente permite frustração para que o filho se constitua. Já Jacques Lacan aponta o risco de uma mãe que ocupa todo o espaço simbólico e impede o corte necessário à autonomia. O que essas teorias raramente problematizam é que a sociedade exige que a mãe ocupe tudo.


Ela deve:

Sustentar emocionalmente.

Organizar a logística da casa.

Antecipar crises.

Regular conflitos.

Educar moralmente.

Trabalhar e produzir renda.


Essa soma de funções gera o que hoje se chama de carga mental: uma responsabilidade fragmentada em centenas de microdecisões diárias. Não é um grande gesto heroico. É a administração constante de detalhes que garantem estabilidade. Como esse trabalho não é remunerado diretamente, ele é romantizado como amor. Mas amor não deveria significar exaustão silenciosa.


Existe ainda um segundo fenômeno: a maternalização de adultos. Quando a mãe, já sobrecarregada, passa a: Lembrar compromissos que não são dela. Resolver problemas que não são dela. Antecipar consequências que não são dela. Regular emocionalmente adultos que deveriam se autorregular. Isso é deslocamento de função. O efeito desse deslocamento é previsível: desequilíbrio relacional. Quando uma pessoa ocupa a posição de organizadora constante, o outro permanece em posição de dependência. Isso gera assimetria. E a assimetria prolongada gera ressentimento.


O ressentimento não nasce da ausência de amor. Nasce da repetição do desequilíbrio. Quando a mãe começa a impor limites, o sistema reage. Porque o sistema estava funcionando a partir da sobrecarga dela. Quando ela devolve responsabilidades, o desconforto aparece. Limite é interpretado como dureza. Recusa é interpretada como frieza. Exigência de reciprocidade é interpretada como exagero.


Mas disciplina, para quem cuida, não é controle. É estratégia de estabilidade. Rotina não é rigidez neurótica. É mecanismo de proteção. Existe uma dimensão política central aqui: o cuidado é tratado como esfera privada, quando na verdade é fundamento público. A economia depende do trabalho invisível das mães, mas individualiza o custo desse trabalho. Quando alguém diz “tu escolheu ser mãe”, ignora que a reprodução social não é apenas escolha individual. É condição de continuidade coletiva. Se o cuidado desaparece, a sociedade colapsa.


A pergunta central deixa de ser emocional e passa a ser estrutural:


Por que naturalizamos que a mãe sustente tudo?

Por que o trabalho invisível é tratado como obrigação feminina?

Por que reciprocidade, quando exigida, é vista como conflito?


Eu não quero ser mãe de todos ao meu redor. Eu quero exercer maternidade onde ela é necessária: com minha filha. Nas demais relações, eu quero equivalência adulta.


Ser mãe é potência criadora. Mas quando essa potência é capturada por uma estrutura que exige doação ilimitada, ela deixa de ser potência e se torna exploração. Se queremos discutir justiça social de forma séria, precisamos incluir o cuidado como categoria central — não como detalhe doméstico.


Talvez a reorganização real da sociedade comece com uma pergunta simples:

Por que o mundo continua estruturado para quem não cuida, se ele só existe porque alguém cuida?





Amanda Beatrice

Colunista 

Oraculista

Apresentadora

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