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Adultização: A Inocência Deturpada e Estuprada

[...] Proteger meninas é garantir que seus corpos não sejam interpretados como espetáculo.

Adultização: A Inocência Deturpada e Estuprada
Imagem Internet

A infância deveria ser território de proteção. Mas, para muitas meninas, o próprio corpo vira campo de batalha antes mesmo da puberdade. A adultização do corpo de crianças — especialmente meninas negras e periféricas — é uma violência silenciosa que se repete nos olhares, nos comentários, nas roupas impostas, nos algoritmos e nas omissões.


Adultizar é enxergar malícia onde existe apenas desenvolvimento natural. É atribuir intenções, sensualidade ou maturidade emocional a quem ainda está aprendendo a amarrar os próprios cadarços. É transformar curvas em convite, crescimento em provocação, dança em insinuação. E essa distorção não nasce na criança — nasce no olhar de quem insiste em sexualizá-la.


Recentemente, o caso envolvendo o influenciador Hytalo Santos reacendeu um debate necessário. Vídeos e conteúdos que expunham meninas em contextos questionáveis levantaram alertas sobre exploração da imagem infantil nas redes sociais. Paralelamente, o criador de conteúdo Felca trouxe denúncias públicas e reflexões sobre como a internet tem normalizado a exposição de crianças em situações que flertam com a erotização. O que se viu foi um embate que vai além de nomes: trata-se de um sistema que monetiza visualizações sem medir as consequências para quem ainda não tem maturidade para consentir.


Mas é preciso dizer: a adultização não começou com as redes sociais. Ela atravessa gerações. Está na escola que suspende a menina porque “o short é curto demais”, enquanto ignora o comportamento inadequado dos meninos. Está no parente que comenta que a criança “vai dar trabalho quando crescer”. Está na publicidade que transforma meninas em miniaturas de mulheres, com maquiagem pesada e poses ensaiadas.




Para meninas negras, o peso é ainda maior. Seus corpos historicamente foram vistos como mais maduros, mais resistentes, menos dignos de cuidado. A sociedade costuma retirar delas a presunção de inocência muito antes do que faz com meninas brancas. Essa distorção impacta diretamente a forma como são tratadas na escola, na justiça e nos espaços públicos.


A internet potencializou o problema. O algoritmo não diferencia infância de engajamento. Vídeos de crianças dançando, performando ou repetindo tendências adultas viralizam rapidamente. E, quando os números sobem, a responsabilidade desce. Quem está protegendo essas meninas? Quem está pensando nas consequências futuras dessas imagens eternizadas?


É preciso romper com a lógica de que “é só uma dança” ou “é só uma brincadeira”. A questão não é a expressão da criança, mas o olhar adulto que consome, comenta e compartilha com segundas intenções. A responsabilidade é coletiva — de pais, responsáveis, plataformas, influenciadores e também do público.


Infância não é ensaio para a vida adulta. É fase própria, com direito à ingenuidade, ao erro, à proteção e ao anonimato. Meninas não são miniaturas de mulheres. São crianças. E enquanto a sociedade continuar confundindo desenvolvimento corporal com disponibilidade, estaremos falhando com elas.


Proteger meninas é garantir que seus corpos não sejam interpretados como espetáculo. É devolver a elas o direito de crescer no tempo certo — sem plateia, sem julgamento e, principalmente, sem violência disfarçada de entretenimento.





Ninha Sousa

Colunista

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