Ensaio Sobre Estar Viva #4
[...] A vida fica mais leve quando tu começa a buscar existir com verdade e paz dentro de ti, independente das tuas versões que andem por aí.
Existe uma coisa difícil de aceitar, mas profundamente libertadora: cada pessoa carrega dentro de si uma versão diferente de nós.
Existem vários de ti. O tu que tua mãe vê. O tu que teus amigos veem. O tu que alguém que se decepcionou contigo construiu na cabeça. O tu que alguém que te admira enxerga. E nenhuma dessas versões é exatamente tu.
Cada pessoa olha para o mundo através da própria história, das próprias feridas, das próprias expectativas. Quando elas olham para ti, não veem apenas quem tu és. Veem também tudo aquilo que carregam dentro delas. Às vezes alguém te acha egoísta porque tu colocou um limite. Às vezes alguém te chama de frio porque tu não correspondeu à expectativa de carinho que ela imaginou. Às vezes alguém te considera ingrato porque tu decidiu seguir outro caminho. Mas muitas vezes o julgamento não nasce do que tu fez. Nasce do que a pessoa esperava. E expectativa frustrada costuma virar julgamento.
Por isso duas pessoas podem viver a mesma situação contigo e sair com conclusões completamente diferentes sobre quem tu és. Uma vai dizer que tu foi generoso. Outra vai dizer que tu foi injusto. Uma vai dizer que tu foi forte. Outra vai dizer que tu foi duro. Cada uma conta a história a partir do lugar onde está. O problema começa quando a gente tenta controlar essas versões.

A gente tenta explicar demais. Justificar demais. Provar demais quem realmente somos. Só que existe um limite invisível nisso tudo: tu pode explicar tuas intenções, mas não pode controlar o que o outro vai fazer com elas.
Tem gente que escuta para entender. E tem gente que escuta apenas para confirmar aquilo que já decidiu acreditar.
Com o tempo a vida vai ensinando uma coisa importante: tu és responsável pelas tuas atitudes, pelas tuas escolhas e pela forma como tu caminha no mundo. Mas tu não és responsável pelas histórias que os outros constroem a partir disso. Alguém pode transformar teu silêncio em desprezo. Alguém pode transformar tua firmeza em arrogância. Alguém pode transformar teu cansaço em indiferença. E às vezes não há explicação que mude isso. Porque aquela versão de ti já foi construída dentro da cabeça da pessoa. Isso não significa viver sem responsabilidade. Muito pelo contrário. Significa assumir responsabilidade apenas pelo que realmente te pertence.
Reconhecer quando erra. Pedir desculpa quando precisa. Tentar ser melhor quando percebe que machucou alguém. Mas também aprender a não carregar pesos que não são teus. A maturidade chega quando a gente entende que ser uma pessoa íntegra não garante que todos vão nos entender. Nem todos vão. Alguns vão te ver com clareza. Outros vão te ver através das próprias dores. E tudo bem.
A vida fica mais leve quando tu começa a buscar existir com verdade e paz dentro de ti, independente das tuas versões que andem por aí.
Amanda Beatrice

Colunista
Oraculista
Apresentadora
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