Mês da Mulher: África Mãe
Onde a mulher é centro, não margem!
No mês da Mulher, somos convidad(os)as a refletir sobre conquistas, lutas e desigualdades. Mas também é tempo de disputar narrativas. Por séculos, o olhar europeu patriarcal construiu a imagem da mulher como frágil, sensível, destinada ao cuidado silencioso e à obediência. Essa visão, importada e institucionalizada, moldou leis, religiões e estruturas sociais no Ocidente.
Mas essa não é a única forma de compreender o feminino.
Sob a perspectiva africana, a mulher não é margem: é centro. Em diversas cosmologias e organizações sociais do continente, a mulher é princípio, é ancestralidade viva, é eixo espiritual e político. O conceito simbólico de “África Mãe” não é apenas poético — ele traduz uma estrutura civilizatória onde o feminino é associado à criação, à liderança comunitária, à sabedoria e à manutenção da vida coletiva.
Em tradições iorubás, por exemplo, as Ìyá — as mães — são guardiãs do poder espiritual. As Yabás, como Oxum, Iansã e Iemanjá, não representam fragilidade: representam força, estratégia, fertilidade, movimento e decisão. São arquétipos de liderança e poder feminino que atravessaram o Atlântico na diáspora.
No Brasil, essa herança não ficou no passado — ela pulsa.
Nos terreiros de religiões de matriz africana, as Ialorixás são referências espirituais, conselheiras, gestoras e matriarcas. Nos bairros, nas periferias e nas comunidades tradicionais, a mulher negra sustenta redes de cuidado e articulação social que mantêm a vida possível. No Carnaval, as baianas — guardiãs da tradição — giram suas saias não como adereço folclórico, mas como símbolo de ancestralidade e autoridade. Basta olhar para escolas de samba para entender que as alas das baianas representam as matriarcas da cultura popular brasileira.
Ali, cada giro é memória. Cada turbante é coroa.

O letramento racial nos ajuda a compreender que o apagamento do protagonismo feminino negro não foi acaso — foi projeto. O patriarcado europeu, aliado ao racismo estrutural, reconfigurou hierarquias e tentou deslocar a mulher negra do centro para a base da pirâmide social. Ainda assim, ela permaneceu sustentáculo.
Resgatar a perspectiva africana é lembrar que o feminino não é sinônimo de submissão. É potência criadora. É liderança comunitária. É poder espiritual. É amor que organiza, não amor que se anula. Quando falamos em África Mãe, falamos de uma epistemologia onde a mulher é fundamento da coletividade. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer: há outras matrizes civilizatórias que nos ensinam sobre equilíbrio de forças, complementaridade e respeito.
Que possamos fazer além de homenagens, mas também nos reconectar com memórias que nos foram arrancadas - SANKOFA. Que possamos olhar para nossas ancestrais — as de sangue e as de cultura — e entender que carregamos nelas não apenas resistência, mas projeto de futuro.
Porque antes de sermos vistas como frágeis, fomos — e seguimos sendo — matrizes de mundo.
Maíra Cidade

Colunista
Apresentadora
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