Quando a Canção Vira Afago: As MULHERES Eternizadas na MPB
[...] Se a realidade muitas vezes as fere, a arte responde com celebração.
Em um país onde a realidade insiste em ser dura com as mulheres, marcado por desigualdades históricas, violências cotidianas e silenciamentos persistentes, a arte frequentemente cumpre um papel que ultrapassa o entretenimento: ela se torna abrigo.
Na Música Popular Brasileira, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970, multiplicam-se canções em que mulheres deixam de ser pano de fundo e passam a ser nomeadas, reconhecidas e celebradas. Em meio a um mundo que tantas vezes as oprime, a música as eleva. E, ao elevá-las, as eterniza.
Quando Toquinho canta Carolina Carol Bela, ele não faz apenas um elogio à beleza feminina. Ele cria uma personagem viva, cheia de ritmo, presença e identidade própria. Carolina não é genérica: ela tem nome, tem som, tem corpo na melodia. Ao nomeá-la, o compositor a fixa na memória coletiva.
Décadas depois, em Carolina, Seu Jorge oferece outra camada dessa tradição: a mulher como lembrança transformadora. Há delicadeza e respeito na forma como ela é evocada, ela é uma menina bem difícil de esquecer, andar bonito e um brilho no olhar, não tem sexualização, não tem projeção, Não se trata de posse, mas de reconhecimento do impacto que sua existência deixou.
É o ser mulher sendo admirado pela sua essência, por sua originalidade, e não por esteriótipo.

O mesmo gesto simbólico se repete em Maria Maria, eternizada na voz de Milton Nascimento. Maria deixa de ser apenas um dos nomes mais comuns do país para se tornar metáfora da mulher brasileira que resiste. “É preciso ter força, é preciso ter raça” ecoa como diagnóstico social e reverência. A canção reconhece a dureza da caminhada feminina, mas a transforma em potência.
Em Madalena, imortalizada por Elis Regina, surge a mulher complexa, atravessada por desejo, dúvida e intensidade emocional. Madalena ama, sente, hesita. É humana em sua totalidade, e retratar essa humanidade plena também é um gesto de honra.
No samba de Martinho da Vila, a mulher aparece como rainha do cotidiano ,forte, central na família e na comunidade, dona de sua história. Não é figura ornamental; é estrutura.
É base.
A poesia de Alceu Valença transforma personagens femininas em força da natureza, vento, lua, mar, sertão. Há encantamento, mas há também reverência diante da potência simbólica do feminino.
O feminino como elemento da natureza, um a mais além da terra, água, fogo e ar, é algo tão grande quanto, A MULHER.
Geraldo Azevedo, especialmente em Dona da Minha Cabeça, a mulher surge como presença luminosa. Não é fragilidade, é delicadeza e força consciente, aquela que ilumina sem se apagar. O amor cantado ali não aprisiona: contempla.
Até mesmo no romantismo suave de Bebeto, percebe-se uma tentativa de celebrar o feminino com ternura e cuidado, não como caricatura, mas como presença digna de admiração.
É evidente que a música brasileira também carrega contradições. Nem todas as representações foram justas ou libertadoras. Contudo, existe uma linhagem consistente de compositores que escolheram a admiração em vez da diminuição, o reconhecimento em vez do silenciamento.
Diante de um mundo estruturalmente opressor para as mulheres, essas canções funcionam como um afago simbólico na nossa existência. Elas dizem: eu te vejo. Eu reconheço tua força. Eu celebro tua complexidade.
Ao transformar Carolina, Maria, Madalena e tantas outras em verso e melodia, a MPB constrói um espaço onde elas não são apagadas, são honradas. Tornam-se eternas não apenas na memória afetiva do país, mas na própria identidade cultural brasileira.
Se a realidade muitas vezes as fere, a arte responde com celebração.
Que a arte siga sendo esse território onde as mulheres não precisam pedir licença para existir. Que ela continue dando voz às Marias ,tantas, múltiplas, trabalhadoras, sonhadoras, resistentes. Que honre todas as Madalenas, humanas, intensas, imperfeitas e verdadeiras. Que celebre cada Carolina que atravessa o tempo deixando rastro de luz. Que a música brasileira permaneça como esse espaço de reconhecimento, onde o feminino não é silenciado, mas escutado. Onde não é reduzido, mas ampliado. Onde não é apagado, mas eternizado.
Porque são essas almas, mães, filhas, artistas, professoras, operárias, líderes, cuidadoras, criadoras, artesãs , donas de casa que sustentam a base injustamente invisível e essencial da nossa sociedade. Que a arte jamais se esqueça disso.
E que, enquanto o mundo insiste em ser duro, a canção e a arte continuem sendo afago, colo, em meio a dura existência de ser mulher.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel
Poeta, Artesã, Confeiteira
Taróloga e Colunista
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