Mulheres no Mercado de Trabalho: A Constante Busca por Equidade e Respeito
[...] de acordo com a OIT a desejada paridade salarial apenas será conquistada em 2086
Há muito se fala sobre a busca das mulheres por melhores condições laborais. No entanto, ainda pouco se fala sobre as dificuldades encontradas - por estas mesmas mulheres, para conciliar vida, família, filhos e trabalho.
Antes de adentrar-se nos dados, necessário pontuar que, historicamente, o papel da mulher destinava-se apenas aos cuidados familiares, moldando-se as meninas para o dia em que estivessem prontas para casarem e assumirem as atividades de donas de casa, mães e esposas. Mulher bem sucedida era aquela que atingisse tal propósito. Tal questão era (e inegavelmente, ainda é) tão enraizada que haviam brinquedos de meninas, fazendo alusão às atividades do lar e cuidado com os filhos, e brinquedos de meninos, os quais podiam realizar qualquer função. É exatamente aí que pode-se notar o início da segregação das atividades, ainda na infância, passada de geração para geração.
Por séculos as mulheres permaneceram inertes, excluídas da vida política e religiosa; ante a ausência de representatividade aos próprios direitos, isso aliado ao fato de que boa parte não tinha acesso à educação, bem como pela subordinação aos maridos — essas seriam algumas das razões pelas quais se mantinham afastadas do mercado de trabalho. Trazendo-se aos dias atuais, na imensa maioria, as mesmas mulheres que buscam melhores colocações, são aquelas que acordam mais cedo para preparar a mochila dos filhos, o lanche saudável, revisam o tema de casa, vestem o uniforme, cuidam de familiares enfermos, largam os estudos para realizar atividades domésticas, etc., situação que se agrava em camadas sociais mais baixas, o que cabalmente limita as oportunidades de desenvolvimento profissional a participação igualitária no mercado de trabalho.
Estima-se que, na contemporaneidade, 30% das mulheres, ainda que indiretamente, deixam o emprego ou os estudos para cuidar dos filhos ou de pessoas idosas, mas entre os homens o número é três vezes menor. Em entrevistas de emprego, às mulheres, ainda surge a clássica pergunta: com quem vão ficar teus filhos? Aos homens, raramente é realizada a mesma indagação. Isto ocorre, pois, apesar de não abertamente comentado, perpertuar-se uma crença social de que os cuidados são intrínsecos da mãe, da irmã, da filha, da esposa, da mulher.
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios de 2022, do IBGE, "as mulheres dedicam, em média 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados, sem qualquer remuneração e invisíveis socialmente". De tão relevante , tal tema tornou-se tema da redação do ENEM no ano de 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. Conforme a ONU, apenas 63% das mulheres entre 25 e 54 anos estão empregadas, contra 91% dos homens.
Caso houvesse a inserção de mais mulheres na economia brasileira, conforme projeção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no período 2017-2025, haveria o aumento de R$ 131 bilhões em receita tributária e do PIB nacional em 3,3%.

Seguindo, importante referir que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho se agrava quando se analisa a questão racial. Mulheres negras enfrentam taxas de desemprego e subutilização da força de trabalho mais altas. Em 2024, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a taxa de desocupação foi de 4,4% para homens brancos, 5,8% para mulheres brancas e 9,3% para mulheres negras.
As diferenças salariais também são evidentes: enquanto um homem branco recebe, em média, R$ 8.849,00, uma mulher negra ganha menos da metade desse valor (R$ 3.964,00), e uma mulher não negra recebe R$ 5.478,00. A maior desigualdade salarial ocorre em cargos de nível superior e funções de liderança.
Ainda, de acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) a desejada paridade salarial apenas será conquistada em 2086. Outro dado curiosamente alarmante é o de que a grande maioria das mulheres estão concentradas em cursos superiores voltados para a área de cuidados, ocupando minoria em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Também necessário registrar que em pesquisa realizada pela Nexus, quatro em cada dez entrevistadas (41%) afirmaram que tiveram ajuda preferencialmente feminina para ascensão na carreira.
Tal pesquisa também identificou que as entrevistadas (três em cada quatro – 74%), tiveram que abrir mão do autocuidado – saúde física e hobbies -, em prol do crescimento profissional.
Ainda há um árduo caminho, de lutas e enfrentamentos, especialmente contra o preconceito e o machismo, a fim de que possamos cada vez mais ganhar espaço no mercado de trabalho, em espaços de pesquisas e em quaisquer outros lugares almejados.
Portanto, conclui-se que o primeiro passo a ser tomado é reconhecer que os problemas relacionados às desigualdades de gênero no ambiente de trabalho existem, para que então ações de garantia à isonomia possam ser desenvolvidas e executadas. Talvez com um esforço contínuo da sociedade seja possível eliminar as variadas formas de abuso, violência e discriminação em razão de gênero no mercado de trabalho.
Luana Collet

Advogada
Colunista
Apresentadora
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