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Mulheres de Voz

[...] um espaço de escuta acolhedora onde as mulheres são reconhecidas pela importância de suas vidas e onde as histórias emocionam, curam, inspiram e fortalecem.

Mulheres de Voz
Imagem Chat Gpt

"Ele nunca me bateu ou agrediu fisicamente, mas eu fazia tudo sozinha; cuidava das crianças e, um dia, decidi que não queria mais aquele relacionamento abusivo. Sabe, ele sempre me depreciava e eu me sentia constantemente só. Então, decidi dar um basta."


Essa fala integra a história de uma das mulheres que ouvimos em um dos encontros do Mulheres de Voz. Explico do que se trata: são rodas de conversa para as quais convido sempre duas mulheres para compartilharem suas trajetórias de vida com o grupo. Como isso surgiu? E o que tem a ver com a luta feminina?


Respondo utilizando uma expressão que ouvi ontem em um vídeo na internet. Era o relato de uma mulher — cujo nome desconheço — que foi vítima de estupro duas vezes e viu seus agressores serem inocentados judicialmente em ambas as ocasiões. Ela afirmou ter se sentido livre apenas quando decidiu denunciar e falar abertamente sobre o ocorrido.


Acredito piamente nisso: não apenas que verbalizar nossas dores nos ajuda a conviver melhor com elas, mas que, através de nossas histórias, podemos salvar vidas. Cada mulher é um universo maravilhoso e complexo, cujas vivências sempre irão inspirar e fortalecer outras.


É assim que lutamos: unindo-nos e apoiando-nos mutuamente. Quando narramos nossas histórias, permitimos que outras mulheres identifiquem aspectos abusivos em seus próprios relacionamentos — sinais que, muitas vezes, a cultura em que vivemos nos impede de perceber. E não são apenas as dores que contam; as vitórias também impulsionam. Já saí de encontros ouvindo relatos como: "Estou pensando em voltar a estudar depois de ouvi-la e entender que não estou tão velha para isso".




Minha inspiração vem do universo feminino que me rodeou na infância. Minha mãe foi criada com primas de primeiro e segundo grau, além das tias; eram oito mulheres que moravam próximas e se sentavam na cozinha para falar da vida, dos filhos e dos maridos. Muitas vezes, vi algumas iniciarem a conversa em lágrimas e saírem rindo, acreditando que as coisas iriam mudar.


Infelizmente, apenas uma teve força para vencer o sistema — um sistema que sufoca, oprime, machuca e, por vezes, mata. Foi uma dessas primas que, há 43 anos, o sistema rotulou de "vagabunda" porque, após ser traída pelo marido, decidiu encerrar o casamento e criar os filhos sozinha, trabalhando e lutando diariamente. Era assim que eu via minha "tia" ser chamada. Ela foi subversiva e, por isso, julgada e humilhada inúmeras vezes. Hoje, reflito que, mesmo entre aquelas mulheres, ela talvez não tenha sido tão bem acolhida; por outro lado, foi nelas que encontrou o apoio necessário para seguir em frente e vencer.


Daí nasce o Mulheres de Voz: um espaço de escuta acolhedora onde as mulheres são reconhecidas pela importância de suas vidas e onde as histórias emocionam, curam, inspiram e fortalecem. Fomos ensinadas a competir, a julgar e a nos distanciar, e luto contra tudo isso. Acredito que venceremos permanecendo unidas, apoiando-nos e criando uma teia com diversos fios de ancoragem — a exemplo da rede Nós por Nós, onde nossas artesãs e empreendedoras expõem e divulgam seus trabalhos.


O 8 de Março é um dia de luta. Não queremos flores; queremos respeito. Queremos continuar vivas e precisamos falar abertamente sobre isso em todos os espaços que ocupamos. Precisamos que os homens estejam abertos para ouvir e, mais do que isso, que se reconheçam e mudem. Afinal, não retrocederemos nos espaços duramente conquistados e naqueles que, mesmo a duras penas, ainda iremos conquistar.


A cada dia estaremos mais unidas. Sentaremos em círculo quantas vezes forem necessárias para acolher umas às outras, saindo desses momentos cada vez mais fortes.


Muito Axé, que Yemoja abençoe a todas.





Mãe Fabiana de Yemoja Ogunté.


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