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Tocando Agora:

O Abraço Que Ficou no Tempo

[...] um gesto que repetiria quantas vezes fossem necessárias.

O Abraço Que Ficou no Tempo
Imagem Internet/Unsplash

Conheci Raquel (nome fictício para preservar a identidade) ainda na ETEC, no antigo Contador. Éramos daqueles conhecidos que dividem corredores, olhares e momentos soltos da juventude, mas que nem sempre seguem próximos depois que os portões da vida se abrem ou se fecham para sempre. A vida foi acontecendo, cada um seguindo seu caminho, até que anos depois nossos destinos voltaram a se cruzar.


Foi por causa da Antídotto Base. A música reaproximou nossas histórias que o tempo havia deixado em silêncio. Raquel apareceu novamente, e o que começou como uma simples reconexão virou uma amizade bonita, generosa e uma relação cheia de conversas longas, cumplicidade e aquele tipo raro de afeto que nasce entre pessoas que se reconhecem na dor e na esperança. Ela era a gremista chata e eu o colorado bobão, vivíamos fingindo brigar, por causa disso.


Raquel vinha de um relacionamento difícil. Havia se separado de um desses homens que tem masculinidade frágil e ofende mulheres e ainda carregava marcas invisíveis de tudo aquilo que viveu. Mesmo assim, havia nela uma força silenciosa, um paradoxo na verdade, uma necessidade de recomeçar, ao mesmo tempo uma vontade de desistir.


E foi assim, criando um espaço seguro um para o outro, que Raquel resolveu me contar um segredo. Era algo que ela carregava com medo. Algo que ela só veio a contar no primeiro e único encontro que tivemos. Uma conversa longa, onde ela sentou tensa, desabafou, riu e comeu bolo de cenoura que eu havia feito para recebê-la.


Depois da separação, ela havia conhecido outra pessoa. Ficou com esse homem uma única vez e nessa única relação, contraiu HIV. Relatou inclusive que encontrou outras Mulheres que haviam sido infectadas por esse mesmo homem, durante a busca pelo tratamento. Isso foi em 2012, há mais de 14 anos e infelizmente atitudes como essa continuam na sociedade. O machismo e a misoginia que faz um homem decidir o futuro de uma mulher continua até os dias de hoje, infelizmente.


Quando começou a falar, dava para perceber o peso de cada palavra. Não era apenas uma revelação médica — era o medo profundo de ser rejeitada, julgada, abandonada outra vez. Ela temia que eu me afastasse. Quando terminou de contar, ficou em silêncio, esperando uma reação que talvez já estivesse preparada para suportar.


Mas a única coisa que consegui fazer foi lhe pedir um abraço. Um abraço longo, daqueles que tentam dizer sem palavras que ninguém precisa carregar tudo sozinho. Naquele momento, não havia medo, tampouco julgamento — só tinha o desejo sincero de que ela soubesse que continuava sendo a mesma pessoa que eu tinha ali diante de mim. Que nada mudaria.


Só que, curiosamente, algo mudou depois daquele dia. Raquel começou a se afastar. Ficou mais silenciosa, mais distante. Aos poucos, foi saindo de cena. Então, as mensagens diminuíram, nunca mais nos encontramos pessoalmente para conversar, e a vida acabou levando cada um novamente para o seu lado do tempo. Soube que Ela havia começado a namorar e a vi pelas ruas cidade algumas vezes.


Depois, entendi que Raquel, queria um relacionamento, algo que eu não estava preparado naquele momento, não por causa do HIV, mas pelo meu coração partido por outra pessoa. Algo que já havia conversado com Ela algumas vezes. Mas, hoje compreendo que além do despreparo, provavelmente, me acovardaria naquela época. Sinceramente.


Durante anos, ficou apenas a lembrança daquele abraço. Até que, muito tempo depois, veio a notícia. Raquel havia partido.


Em muitas de nossas conversas, compartilhando medos e inquietudes, lembro dela comentar sobre  sua vontade de desistir do tratamento e ir embora logo, não suportava a depressão e a dúvida em ser aceita em razão do “segredo”, havia também o medo de ficar longe do filho em função da longa batalha judicial com o ex-companheiro e o julgamento das pessoas.


Quando soube, uma mistura de tristeza e saudade tomou conta de mim — junto com a memória nítida daquele momento em que ela confiou em mim o seu maior medo. Hoje, quando penso nela, não lembro primeiro da doença. Nem da dor. Lembro de um ato de coragem. Da mulher que teve a força de contar sua verdade mesmo tremendo por dentro. Lembro do abraço que demos naquele dia, um gesto que repetiria quantas vezes fossem necessárias. E às vezes fico pensando que algumas pessoas passam pela nossa vida como música que toca por pouco tempo — mas que nunca mais sai da memória.


Raquel foi assim. Uma presença breve, intensa, humana.


E aquele abraço continua existindo em algum lugar do tempo, onde o preconceito não chega e onde as pessoas são lembradas exatamente pelo que eram: dignas de amor, de cuidado e de afeto.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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