Mulheres de Voz: Relatos #1
[...] Leia com acolhimento e pense sobre o que cada relato pode fazer na vida de outras mulheres...
Este é o primeiro relato recebido para o programa Mulheres de Voz. Leia com acolhimento e pense sobre o que cada relato pode fazer na vida de outras mulheres que tenham acesso à ele, uma das coisas que vejo acontecer, é a transformação da dor por saber que nunca estamos sozinhas. Sendo em histórias tristes, alegres, de superação ou de dor, nos encontramos umas nos relatos das outras. Você também pode inspirar e fortalecer outras mulheres através do seu relato.
Saiba que a leitura que inicia agora é exatamente como o texto foi enviado para mim, este é um dos meus compromissos, falar a voz de cada uma, como é, e guardar sua identidade em sigilo. Boa leitura!
“Vou contar a história da minha mãe, usarei o nome de Maria.
Minha mãe teve mais 4 irmãos, aos 14 anos viu a mãe dela se matar ( jogou álcool no corpo e ateou fogo) .minha avó materna teve depressão pós parto, claro que na época não era tratado e era visto como esquizofrenia ou algo parecido Minha avó estava estendendo roupas no varal, minha mãe ouviu os gritos e foi até lá,pegou um lençol e tentou ajuda-lá, foi para hospital, ficou alguns dias e não resistiu... Mas onde estava meu avô?! Ele estava na casa da cunhada que era sua amante, isso mesmo que estão ouvindo, ele teve um caso com a mulher do irmão e depois que ele morreu, assumiu a relação e deixou a esposa e os filhos a míngua.
Após a morte da minha avó ele deu a bebê para sogra cuidar e os outros filhos todos menores de idade foram dados para parentes, ou seja para trabalhar em troca de alimento...DOLOROSO, minha mãe foi para casa de tios em Porto Alegre ,irmão do meu avô, isso aos 14 anos e aos 16 anos retornou pra Pelotas, a tia por parte de mãe a adotou ( ouvi por alto que o tio de Porto Alegre teria violentado minha mãe, por isso a outra tia a trouxe pra Pelotas, mas não tive coragem de perguntar pra ela até hoje se isso aconteceu)
Tenho 50 anos e minha mãe 68, não consigo imaginar as dores que passou e acho que mexer no passado é abrir uma DOR, que não quero que ela reviva.
Aos 18 anos conheceu meu pai ,ele tinha 17, queriam casar, as famílias não aceitaram, tiveram a ideia de engravidar, o que aconteceu ,casaram logo. Minha mãe esperançosa de uma vida diferente ,que iria ter sua família ,foi feliz em direção ao futuro, porém esse foi tão doido quanto ao passado. Foi morar no pátio dos sogros, meu pai começou a agredi-la durante a gestação e parou por volta dos 7 anos...isso que me recordo, pois lembro de uma noite acordar e ele estava com a mão sangrando, ela cortou a mão dele e disse tu nunca mais vai me bater ,as agressões físicas ,acho que pararam ,mas as verbais NUNCA, pois brigavam muito.
Pasmem eu e meu pai temos 17 anos de diferença, ele sempre foi muito bruto, me batia por qualquer coisa, eu estudava a luz de vela,minha mãe era faxineira e ele biscateiro, ela mantinha a casa e me comprava roupa, remédios ele era o básico e olha lá...quando tinha eu 7 anos nasceu meu irmão. Minha mãe achava que se ele tivesse um filho ( homem) mudaria, que nada...era agressivo com ele também.
Lembro que eu tinha 9 anos e minha mãe chegou com a lista da escola ,ele disse:
Pode parar de estudar pois 4 ª série tá bom serviço de empregada doméstica não vai faltar. Ela respondeu, sou faxineira e sempre serei, já minha filha estudará e será alguém na vida, mesmo que eu perca os joelhos ajoelhadas. Lembro desse dia como fosse hoje...
Muitas coisas aconteceram, mas o principal é que aquela menina... Eu... aos 18 anos fez concurso público e entrou pra Brigada Militar... fui embora de casa aos 19, implorei pra minha mãe e meu irmão virem junto, ela não quis, disse que o meu irmão precisava de uma presença masculina. Ele sempre me detestou...claro eu o afrontava.
Foram várias tentativas ,eu queria que ela saísse de lá, não consegui ,Até que um dia meu irmão ligou que estavam brigando e se agredindo eu fui até lá com duas viaturas, resgatei minha mãe 🙏🏻 Ela se libertou ✨
Há 20 anos minha mãe renasceu ,vive em paz no apê dela, somos muito amigas. Tenho minha família ,esposo e filho. Queremos que ela venha morar conosco ,ela resisti ahahah. Não mora, mas está sempre conosco e tem o quarto dela arrumadinho pra quando quiser vir 🙏🏻
Honrei minha mãe, tenho duas graduações, ela me entregou os dois diplomas e eu sempre a homenageio ,sempre digo o mérito NOSSO. Hoje somos aposentadas, e passamos bastante tempo juntas, sempre lado a lado, passamos por muitas coisas juntas, tivemos momentos difíceis, hoje vivemos em Paz e com a certeza que teremos uma outra ,até o último dia da nossa vida terrena.✨”
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Mãe Fabiana de Yemoja Ogunté

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