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A Naturalização da Violência: Onde começa o Ciclo?

Que dia chegaremos ao ponto em que o limite saudável, a conversa, a escuta e o abraço serão a verdadeira base da família brasileira?

A Naturalização da Violência: Onde começa o Ciclo?
Imagem Internet/Unsplash

Nessa semana, enquanto passeávamos, corrigi uma pessoa que chamou duas senhoras de 'velhas' na frente do meu filho. Expliquei que o termo é inadequado e que a violência também nasce no vocabulário que escolhemos. Felizmente, a pessoa entendeu o ponto e aproveitou para explicar ao meu filho que palavras têm o poder de ferir e diminuir as mulheres, reforçando a importância de sermos gentis e respeitosos. Infelizmente, vivemos sob uma cultura que naturaliza a violência, e as raízes disso estão fincadas na infância. É comum ouvirmos frases que justificam o castigo físico como "correção": "Bato agora para a polícia não bater no futuro."; "As crianças estão sem limites porque não podem mais apanhar."; "O filho é meu; se a conversa não resolve, o tapa resolve."


Uma pesquisa abrangente realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP (2012) realizada em 11 capitais brasileiras revelou que mais de 70% dos adultos entrevistados sofreram castigos físicos na infância. Ou seja: a maioria da geração atual foi educada sob punição física. Se o castigo físico fosse a solução para a criminalidade, deveríamos viver em uma sociedade pacífica. No entanto, os números mostram o oposto. A conclusão é lógica: não podemos culpar uma "educação baseada no diálogo e no amor" pela falta de limites das crianças, simplesmente porque essa educação nunca foi a regra no nosso país.


A questão é muito mais complexa e perpassa por abismos sociais e ausências estruturais:


1. Sobrecarga Materna: Nas classes mais baixas, muitas mães chefiam lares sozinhas, trabalhando o dobro e ganhando 30% menos que os homens. O tempo para uma educação reflexiva é devorado pela sobrevivência.


2. Abandono Paterno: Mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão. Entre os pais presentes fisicamente, muitos ainda acreditam que educar é "tarefa da mãe".


3. Terceirização e Culpa: Nas classes altas, a educação é muitas vezes delegada integralmente a escolas e telas, enquanto o consumo de bens materiais tenta compensar a ausência afetiva.


4. Exemplo Social: A criança é um espelho. Ela absorve a violência banalizada na TV, a falta de respeito entre adultos e a competitividade agressiva do mundo exterior.


A desigualdade social crescente no Brasil é a grande motorista da violência, mas a agressão doméstica é o combustível que a naturaliza na mente das crianças. Enquanto o tapa for visto como ferramenta pedagógica, continuaremos colhendo adultos que resolvem conflitos através da força. Que dia chegaremos ao ponto em que o limite saudável, a conversa, a escuta e o abraço serão a verdadeira base da família brasileira?





Roberta Luzzardi


Educadora e Defensora do Feminismo Interseccional

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