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Caso de racismo na Escola Irmãos Andradas em Canguçu

Entrevista com Andriéle Gomes, mãe do menino Kayke!

Caso de racismo na Escola Irmãos Andradas em Canguçu
Foto: Joice Bruhn/Ascom SOP

Caso de racismo em Escola Estadual de Ensino Fundamental Irmãos Andradas em Canguçu, reabre a necessidade de debate sobre o tema em uma cidade que costuma se esquivar de sua colonização racista. Nossa reportagem foi atrás da palavra de Andriéle Gomes, mãe do menino Kayke e o seu depoimento além de demonstrar uma dor profunda é um grito por justiça e também resistência. Chega de racismo nos espaços educacionais!


Leia a entrevista:

1 - Estamos no ano de 2026, o racismo é uma realidade na sociedade Brasileira. Qual o teu sentimento de Mãe neste momento?

Dor, dor, nojo, raiva e indignação, dói ouvir, dói lembrar e dói não saber o que meu filho pode ter passado lá dentro e eu não saber e não me darem a chance de fazer nada.


2 - O que aconteceu exatamente com teu Filho?

Bom, eu não sei dizer a quanto tempo isso acontece dentro da escola, mas no ano passado teve um episódio já que foi tratado como “brincadeira de criança”, porque a bomba estourou depois de um grupo de WhatsApp que os colegas de sala de aula criaram e ali humilhavam, discriminavam e agrediam meu filho verbalmente. Foi onde ele explodiu e aí abriu o jogo, contando tudo que estava acontecendo dentro da escola. Que colegas diziam que tinham nojo dele, que era contaminado, entre tantas outras coisas mais que chega me doer o coração de ter que ouvir novamente, eu não consigo ter ideia do que essa criança pode ter passado dentro da sala de aula.


3 - Qual a posição da Escola Irmãos Andradas com o ocorrido? Foi prestado o devido amparo? O seu Filho continua na Escola?

Nenhuma, na segunda-feira entrei em contato com a Escola através de áudio no WhatsApp explicando tudo, e não recebi amparo nenhum. Na quarta-feira depois que me acalmei e consegui ficar mais tranquila, fui até a escola para conversar com a direção, mas eu já tinha tomado minhas providências: entrei em contato com o conselho tutelar pedi uma orientação, fui até a delegacia fiz um boletim de ocorrência e então fui no ministério público e comuniquei sobre o acontecido. Não era a primeira vez, inclusive a menos de 20 dias atrás aconteceu um outro caso de racismo e humilhação dentro da escola e tudo foi tratado a portas fechadas, assinado em ata e assim está foi resolvido.


Quando cheguei na escola deixei claro que não teria mais conversa, que para mim aquilo era inadmissível e repugnante, entreguei o B.O e comuniquei sobre minhas providências, tentei conversar sobre minha dor e minha indignação com a escola, mas fui tratada como se meu filho fosse o errado. Em um dos momentos ainda foi questionado pela vice-diretora da escola: em qual momento foi citado o nome do Kaíque?


Não se interessaram em ver o que eu tinha pra mostrar e só depois de muita insistência, e ainda assim, o tempo todo sendo apontada por eu ter procurado outros meios antes da Escola, porque o importante ali era resolver de porta fechada igual os outros pais fizeram, o que eu não julgo, porque dói demais dar a cara tapa, dói expor e dói lembrar. Mas eu precisei fazer isso pelo meu filho e por tantas outras crianças que já sofreram ali e outras que os pais tiveram que tirar da escola, eu gravei a conversa toda e foi a coisa mais certa que eu fiz e quero que todo mundo escute para entenderem com o que a Escola realmente estava preocupada, e todos os absurdos que ouvi naquela sala.


Ele não está indo pra escola, inclusive na reunião foi proposto para mim que ele poderia ser trocado de turma, o que a vice-diretora cortou na hora me dizendo “na outra turma não tem lugar”. Por mim ele não continua lá, mas estou respeitando o tempo dele e quero que ele escolha até porque esse não vai ser o primeiro e nem o último problema que ele vai enfrentar e tenho que ver o que ele vai decidir e aguardar a Escola se posicionar, ainda existe gente boa lá que querem ele lá e pedem muito para ele ficar, ele recebeu mensagem de apoio de alguns colegas inclusive tem o Instagram do grupo da turma que escreveram “sentimos muito Kaíque, pelo que alguns colegas fizeram” acredito que ele tá muito ferido, mas está dividido, porque por horas quer ir embora e alguns momentos quer voltar, mas confesso que eu tenho medo.


4 - Quais providências foram tomadas até este momento?

Já tomei todas as providências cabíveis e que estão ao meu alcance, boletim de ocorrência, Conselho Tutelar, Ministério Público, C.R.E e não vou me calar, as coisas não vão mais ser assim.


5 - Você acredita que o caso não ficará impune?

De verdade não sei, sinceramente espero que não, espero que eles aprendam que preconceito, bullying, racismo, discriminação não são brincadeiras de criança e não devem ser tratados às portas fechadas, assinando uma ata e com reunião de pais porque já não está adiantando, teve uma agressão dentro da Escola. O que estão esperando? Esses alunos se juntarem e tentar agredirem outro de maneira pior do que já foi? Fico me perguntando.


6 - A Educação pode ser um fator determinante ao combate ao racismo?

Pode, primeiramente dentro de casa porque cada criança é o espelho do que vê e ouve dentro de casa, depois na Escola com punições para quem comete esse tipo de agressão, humilhação e discriminação, tem que ser debatido em aula que algumas coisas são crime e que todos devem ser tratados com respeito e igualdade.


7 - O Brasil enfrenta o racismo diariamente em todos os lugares e em Canguçu não é diferente: Qual recado você deixa para as Famílias que sofrem com esse mesmo mal?

Meu recado é que não podemos nos calar. Tem em qualquer lugar sim, mas fechar os olhos, fingir que não vê, passar pano; tratar um crime, um assunto sério de portas fechadas como se fosse uma “brincadeira de criança”, para que outras pessoas não saibam e isso não afete a Escola não é a solução, isso é compactuar com o problema e serem omissos a tudo que está acontecendo.


Eu sei que não é fácil falar, para mim não foi e não está sendo, mas depois que falei e recebi tantos relatos de coisas que aconteceram, tanto apoio, relatos inclusive de estudantes que estão sofrendo e se calaram, que talvez eu não consiga mensurar o quanto é dolorido, e o silêncio só protege quem erra, omissão também é compactuar com o racismo, bullying e o preconceito.


De peito aberto eu vou falar e lutar pelo meu filho e pelas tantas outras crianças, isso não pode acontecer mais, basta.




Até o fechamento desta edição, a Escola não se pronunciou publicamente sobre o caso. Não se trata de um caso isolado, isto podemos afirmar com certeza, muitos casos são simplesmente abafados. Esperamos que as autoridades possam nos dar uma explicação em breve sobre a conduta desta situação.


Como ex-aluno da Escola, como homem negro e como pessoa com obesidade, já passei por situações constrangedoras ao caminhar na quadra da Escola até o Foro da Comarca de Canguçu, onde trabalhei por muitos anos, ouvindo comentários gordofóbicos e racistas de crianças acompanhadas de seus pais, o que é pior, pois jamais houve qualquer ação de diálogo sobre bullying. Esperamos que esse episódio sirva de recomeço aos Irmãos Andradas, afinal para ser uma Escola de verdade é necessário lidar com esses temas reais e não uma “brincadeira”.


Nossa redação está aberta para também dar voz a Escola, mas reafirmo, é necessário se posicionar. 






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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