Ataques a Terreiros de Matriz Africana Expõem Avanço do racismo religioso no Brasil
Não são casos isolados!
Não são mais casos isolados de intolerância, como querem que a gente veja, o que se vê na realidade é uma sequência de agressões, ameaças, depredações e tentativas de silenciamento contra espaços sagrados que carregam fé, memória, ancestralidade e resistência. Dados e relatos recentes mostram que as religiões de matriz africana seguem entre as principais vítimas desse tipo de violência no país.
Em novembro de 2025, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania lançou o relatório “Respeite Meu Terreiro”, que mapeou casos de intolerância religiosa em 255 terreiros de todas as regiões do Brasil. Já uma divulgação posterior do estudo apontou que 77% dos terreiros entrevistados sofreram racismo religioso, enquanto 74% relataram ameaças ou destruição de Casas Sagradas. O levantamento também mostrou um dado alarmante: apenas 26% conseguiram registrar boletim de ocorrência, o que revela não só a violência em si, mas também as barreiras de acesso à proteção do Estado e à Justiça.
Outro recorte, divulgado pela Agência Brasil em dezembro de 2025, indicou que, a partir de respostas de 511 terreiros, 80% sofreram violências ao menos uma vez em dois anos. Entre os episódios mais frequentes estão agressões verbais, xingamentos, ataques diretos e até abordagem policial discriminatória. O dado desmonta qualquer tentativa de tratar o problema como exceção: estamos diante de um padrão estrutural de perseguição.
Os casos recentes ajudam a traduzir esses números em realidade concreta. Em janeiro de 2026, a Fundação Cultural Palmares repudiou o ataque ao terreiro “Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza”, em Salvador, alvo de pichações ofensivas com conteúdo religioso. O episódio é emblemático porque mostra como a violência contra terreiros continua acontecendo à luz do dia — ou da madrugada — e de forma cada vez mais ousada, como se os agressores contassem com a impunidade e com a naturalização social desse ódio.

Terreiro incendiado em São José da Coroa Grande (PE)
Um levantamento citado pelo Governo Federal e pela Agência Brasil identificou 699 casos de violações contra terreiros, lideranças religiosas e símbolos afro-brasileiros desde 1996, além da morte de 95 lideranças religiosas, sendo 45 de forma violenta. Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo aparecem entre os estados com maior número de ocorrências contra locais sagrados, sem contar com o aumento de casos de violência e racismo religioso contra Terreiros na região sul. Os dados revelam que a violência contra os povos de terreiro não é episódica, mas histórica, continuada e profundamente ligada ao racismo que estrutura a sociedade brasileira.
Também cresceram as denúncias formais de intolerância religiosa no país. Segundo dados divulgados pelo governo, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, mantendo a tendência de alta. Em janeiro de 2025, a Agência Brasil já havia informado que os registros de 2024 chegaram a 2,4 mil casos, um crescimento de 66,8% em relação ao ano anterior. Embora a intolerância atinja diferentes grupos, representantes do próprio MDHC (Ministério dos Direitos Humano e Cidadania) afirmam que as Religiões de Matriz Africana continuam entre as mais atacadas.
Falar em ataques a terreiros, portanto, é falar de liberdade religiosa, mas também de território, cultura e direitos humanos. Cada Terreiro atacado representa mais do que um espaço físico violado: representa uma tentativa de apagar saberes ancestrais, interromper vínculos comunitários e reafirmar hierarquias raciais e religiosas que o Brasil ainda não conseguiu enfrentar com a devida seriedade. O nome correto disso não é apenas intolerância. Como apontam estudos e autoridades, trata-se de racismo religioso.
Enquanto o país não transformar repúdio em proteção concreta, investigação em responsabilização e discurso em política pública, os ataques seguirão se repetindo. Defender os terreiros é defender a democracia, a diversidade e o direito de existir sem medo.
Jeff Soares

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