Ensaios Sobre Estar Viva #5
[...] cada estação que passa é uma troca silenciosa...
Com sorte, tenho mais 70 anos pela frente. Isso parece muito quando a gente fala, mas na prática não é. 70 anos passam. Passam nos dias comuns, nas semanas iguais, nas escolhas que a gente nem percebe que tá fazendo.
Eu já entendi uma coisa: eu não vou viver tudo que quero viver. Não vou ler todos os livros, nem ver todos os filmes, nem ir em todos os bares, nem conhecer todos os países. Então não é sobre tentar dar conta de tudo. É sobre escolhas.
São 70 primaveras, verões, outonos e invernos. E cada estação que passa é uma troca silenciosa: eu abro mão de alguma coisa pra viver outra. Não existe escolha sem perda.
Hoje eu sou mãe. Minha filha não tem nem dois anos. Eu vou dedicar boa parte da minha vida a ela, e isso não é um peso, é uma escolha consciente. Só que eu também sei que isso muda. Vai chegar um momento em que ela não vai mais me querer tão perto. E isso é natural.
Quando esse momento chegar, eu vou precisar saber o que fazer com a minha própria vida. porque não é papel dela me preencher, nem me cuidar, nem carregar a responsabilidade de dar sentido aos meus dias. Isso significa que, desde agora, eu preciso prestar atenção em onde eu coloco minha energia. No que eu construo além dela. No que eu cultivo que é só meu. Porque o tempo não vai parar quando ela crescer. Ele vai continuar passando do mesmo jeito.
Então a pergunta não é só como eu quero viver hoje. É, que tipo de passado eu quero ter daqui 60, 70, 80 anos? Quando eu olhar pra trás, eu quero ver uma vida que eu escolhi ou uma vida que foi acontecendo enquanto eu me distraía? Eu quero lembrar de presença ou de pressa? De escolhas ou de automatismo? De coragem ou de adiamento?
A verdade é simples: o futuro não é um lugar distante. Ele tá sendo construído agora, nas decisões pequenas, repetidas, quase invisíveis. Com sorte, eu tenho mais 70 anos. Com muita sorte. Então talvez a pergunta mais honesta seja essa: se a vida que eu estou levando hoje virasse a minha história inteira, eu ficaria em paz com ela? Porque no fim, não é sobre ter feito tudo. É sobre ter feito escolhas que façam sentido pra mim.
O tempo não vai esperar eu decidir. Ele já tá andando. E, querendo ou não, eu já tô escolhendo.
Amanda Beatrice

Oraculista
Apresentadora
Colunista
Mãe
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