Neurodivergência na Educação Pública
[...] A precariedade estrutural é um dos principais entraves.
A crescente presença de crianças neurodivergentes nas instituições de ensino brasileiras revela, ao mesmo tempo, um avanço no acesso à educação e uma profunda contradição estrutural: a inclusão existe no discurso e na matrícula, mas não se concretiza plenamente no cotidiano escolar.
Nos últimos anos, houve um aumento significativo no número de estudantes neurodivergentes nas escolas públicas. Apenas no caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA), o número de matrículas cresceu cerca de 50% em um único ano, evidenciando que essas crianças estão, de fato, chegando à escola. Esse dado, por si só, poderia ser celebrado como um marco de democratização do ensino. No entanto, quando analisado em conjunto com as condições reais das instituições, ele escancara um problema: o sistema educacional não se preparou para recebê-las.
A precariedade estrutural é um dos principais entraves. Apenas cerca de 27% das escolas possuem algum tipo de estrutura de apoio para alunos com necessidades específicas. Isso significa que a maioria das crianças neurodivergentes está inserida em ambientes que não consideram suas necessidades sensoriais, emocionais e cognitivas. A ausência de salas de descanso, ambientes climatizados, espaços lúdicos adequados e recursos pedagógicos diferenciados transforma a escola, muitas vezes, em um espaço de sobrecarga — e não de aprendizagem.
Outro ponto crítico é a falta de profissionais de apoio, como auxiliares de desenvolvimento infantil, mediadores e equipes multidisciplinares. A inclusão, nesses casos, torna-se uma responsabilidade quase exclusiva do professor regente, que já enfrenta turmas numerosas e múltiplas demandas. Sem esse suporte, o processo de ensino deixa de ser individualizado e passa a ser padronizado, ignorando as especificidades de cada estudante.

A formação docente também aparece como um dos maiores desafios. Mais de 60% dos professores afirmam não ter recebido capacitação adequada para lidar com alunos neurodivergentes. Esse dado evidencia uma grave lacuna nas políticas de formação inicial e continuada. O resultado é um cenário em que muitos educadores precisam “aprender na prática”, frequentemente sem orientação, o que gera insegurança profissional e pode levar à interpretação equivocada dos comportamentos dessas crianças — muitas vezes rotuladas como desinteressadas ou indisciplinadas.
Essa realidade revela um fenômeno preocupante: a chamada “inclusão excludente” ou “exclusão silenciosa”. As crianças estão fisicamente presentes na escola, mas não participam efetivamente do processo de aprendizagem. Estão incluídas no papel, mas excluídas na prática. Isso compromete não apenas o desenvolvimento acadêmico, mas também a construção da autoestima, da socialização e do sentimento de pertencimento.
Além disso, é importante destacar que a ausência de investimento não é apenas uma falha técnica, mas uma questão política. A legislação brasileira garante o direito à educação inclusiva, mas sua efetivação depende de financiamento, planejamento e compromisso institucional. Como apontam especialistas, a inclusão só se concretiza quando há investimento contínuo em estrutura, formação e valorização dos profissionais da educação.
Diante desse cenário, torna-se urgente repensar o modelo educacional vigente. Não se trata apenas de inserir crianças neurodivergentes na escola, mas de transformar a escola para que ela seja, de fato, um espaço para todos. Isso implica reduzir o número de alunos por turma, garantir profissionais de apoio, investir em formação continuada, adaptar os ambientes físicos e, sobretudo, construir uma cultura escolar baseada no respeito às diferenças.
Portanto, o aumento de crianças neurodivergentes nas escolas públicas não deve ser visto como um problema, mas como um chamado à responsabilidade social. A verdadeira questão não é se essas crianças devem estar na escola — isso já é um direito garantido —, mas se a escola está disposta a se transformar para acolhê-las com dignidade, equidade e respeito.
Liziane Borges

Pedagoga
Professora
Colunista
Apresentadora
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