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Nikolas Ferreira e Adrilles Jorge - Desnecessários e Irresponsáveis

[...] Há uma diferença fundamental entre defender a liberdade de expressão e utilizá-la como escudo para perpetuar estruturas de opressão.

Nikolas Ferreira e Adrilles Jorge -  Desnecessários e Irresponsáveis
Foto Divulgação

Há um limite tênue entre o debate político legítimo e a ignorância da insistência em alimentar retrocessos travestidos de opinião. No caso recente envolvendo Nikolas Ferreira e Adrilles Jorge, esse limite foi ultrapassado com uma facilidade preocupante — e, sobretudo, desnecessária.


Ao se colocarem contra iniciativas que buscam punir a misoginia, ambos optam por um caminho já conhecido da extrema-direita: o da banalização da violência por meio do discurso. Não se trata aqui de divergência técnica ou jurídica sofisticada, mas de uma estratégia recorrente de transformar proteção em “censura e impunidade” e responsabilidade em “perseguição à liberdade de expressão”. É um roteiro antigo, repetitivo que se recusa a reconhecer que palavras também tem poder, elas ferem — e, muitas vezes, legitimam agressões concretas.


No caso de Nikolas, há uma tentativa clara de capitalizar politicamente em cima de pautas sensíveis, mobilizando uma base que se alimenta da ideia de que direitos são privilégios invertidos. Já Adrilles, ao recorrer à caricatura em plena tribuna, esvazia o debate e o reduz a espetáculo. Quando um representante público escolhe a encenação em vez da argumentação, não há provocação inteligente — há apenas ruído.



Imagem: Douglas Ferreira/Rede Câmara


O mais grave, no entanto, não é o estilo, mas o conteúdo. Questionar a necessidade de leis que combatam a misoginia em um país marcado por desigualdades profundas e violência de gênero não é apenas equivocado — é irresponsável. É ignorar deliberadamente uma realidade que vitima milhares de mulheres todos os anos, seja no espaço doméstico, no ambiente de trabalho ou nas redes sociais.


Há uma diferença fundamental entre defender a liberdade de expressão e utilizá-la como escudo para perpetuar estruturas de opressão. Quando figuras públicas com grande alcance escolhem esse segundo caminho, o impacto não é abstrato: ele reverbera em comportamentos, legitima discursos e reforça a sensação da impunidade em um País de impunidades.


Chamar isso de debate é generoso demais. O que se vê é uma palhaçada, disfarçada de resistência em aceitar que a sociedade mudou — e que determinadas práticas não cabem mais sob o guarda-chuva da “opinião conservadora”. A lei que busca punir a misoginia não surge do nada; ela é resposta a uma urgência social. Combatê-la, não é coragem política. É, no mínimo, desnecessário.







Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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