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Mulheres de Voz: Tereza, a minha Tetê

Um pouco da minha história...

Mulheres de Voz: Tereza, a minha Tetê
Imagem Internet/Unsplash

Hoje quero compartilhar com vocês um pouco da minha história. Tenho pensando em escrever minha auto-biografia (não publicável), e uma das coisas que penso, estando há poucos dias dos meus 50 anos, é que preciso responder a pergunta que tanto me faço, quem eu sou? A resposta não parece fácil. Um dos caminhos que acredito ser importante percorrer é relembrar as pessoas e histórias que passaram por mim e que me constituíram como o ser que hoje eu sou. Por andar saudosa neste período chamado pelos místicos de inferno astral, vou falar da minha avó materna.


São lembranças com o cheiro e o sabor de uma cozinha muito acolhedora em uma pequena casa, que ficava no pátio de uma grande mansão onde meus avós trabalhavam como caseiros e onde viveram muito tempo na cidade de Gramado. A cozinha era colorida, tinha uma galinha de porcelana que ornava a mesa e sempre quis saber o que tinha ali dentro. Hoje esta galinha está na casa da minha mãe, é só o que espero de herança, mas acho bem difícil que meu desejo se realize. Quando chegávamos na casa da vó, a mesa estava repleta de bolos, doces, pães, café passado e refrigerante, era a mesa de uma avó que aguardava com carinho a visita da filha com seus netos. Era maravilhoso.


Mas não foi sempre assim, nem antes e nem depois. Ouvi inúmeras vezes a história da vó Tetê, que conheceu meu avô e casou aos 15 anos de idade. Atualmente sabemos que isto é crime porque se trata de uma criança, mas na década de 40 era “normal” e a história da Tete foi marcada por isso, pelo menos na versão que eu conhecia. Segundo contam, meu avô tinha um gênio muito forte - eu convivi muito com ele, e nestas épocas o gênio foi se abrandando em um corpo adoecido de um lindo senhor, sempre muito bem vestido e perfumado - mas a história dele é outra, nesta ele é coadjuvante. Por gênio forte, podemos pensar muitas coisas, como as que eram ditas nos cochichos: -Acho que o Assis bate na Tereza! Sempre cochichos e nunca afirmações.


A Tete ficou grávida de sua primeira filha logo cedo, e quando minha mãe nasceu ela tinha 16 anos. O jovem casal morava no pátio da mãe da Tete, minha bisavó, de quem guardo lembranças que até hoje me geram insegurança e um pouco de medo, uma mulher forte, e aos meus olhos, dura e controladora. Acontece que foi neste ambiente que a Tete aos 16 anos se tornou mãe. Mãe de uma menina que dizem que chorava a noite toda, e que pelo fato do pai ser açougueiro e levantar muito cedo para receber a carne, acabou sendo criada pela avó.


Minha mãe conta que um dia a bisa chegou para a Tete e disse, “deixa que eu durmo com ela para o Assis descansar”, e assim foi feito. O jovem casal teve mais dois filhos, dois meninos de quem um dai vou falar. Em um determinado momento da vida, meus avós decidiram mudar para a casa deles, e pelo que lembro ficava em Gravataí e a bisa morava em Porto Alegre. Quando esta mudança aconteceu a mãe da Tete não permitiu que ela levasse minha mãe, disse que morreria se a tirassem dela, e eu quase consigo ver esta cena, que fez com que a Tete tenha tomado a decisão de deixar a filha.


Minha mãe diz que conviviam muito, mas sempre com uma mágoa terrível de ter sido deixada para trás, embora, sempre tenha tecido elogios à maternidade da avó, entre alegrias e tristezas ela sempre elogiou a Mãe; e a Tete era chamada de Tereza pela filha. Em fim, a Tete e a filha sempre tiveram essa questão na vida.


Quando eu tinha uns 5/6 anos meu avô ficou muito doente e não podia mais morar na serra, foi então que meu pai fez uma casa no nosso pátio e eles foram morar lá. Só que lá. a vida não era um mar de rosas, era bem “turbulenta” e realmente não lembro por quanto tempo eles ficaram. Nós mudamos para outra cidade em razão do trabalho do meu Pai, brigadiano, e não tenho certeza se eles ficaram na casa que foi comprada por um dos meus tios, em fim, quando meu avô faleceu a Tete passou de casa em casa.


Morou um tempo conosco aqui em Pelotas, mas era muito conflituoso e ela sentia muita falta de Porto Alegre, aconteciam muitas coisas em nossa vida que eu entendo porque ela não ficou. Quando as coisas se definiram mais na vida dela, meus padrinhos construíram um quarto e sala onde ela morou, até ir para a clinica de repouso onde faleceu uns anos depois.


Entre tantas coisas que aconteceram na vida de minha avó, o que eu queria contar aqui, é o quanto essa mulher é maravilhosa. Eu e a Paula éramos as netas preferidas, e ela não era o tipo de pessoa que escondia isso. O que penso dessa preferência? É que era uma reação, ao ciúme que ela sentia dos outros netos que preferiam a outra avó. A Tete frequentou o Seicho-No-Ie, trazia timidamente uns panfletos para lermos, teve um tempo que voltou a estudar, tinha uma melhor amiga inseparável e a galinha só saiu da sua cozinha quando não teve mais a sua casa, quando suas coisas forma dadas.


Mesmo antes de tudo isso, a cozinha foi uma das primeiras coisas que se perdeu, quando passou a andar por casas feitas, por quartos emprestados, ela logo parou de fazer aquelas coisas deliciosas que eu lembro de ter lá em Gramado. Embora o marido tivesse uma gênio forte, e isso não quer dizer que o dela era fraco, quando ele morreu muito dela começou a morrer também, embora algumas coisas começassem a nascer como contei aqui.


Outro dia meu filho comentou que não sabia o quanto ela era sensível, até encontrar a caixa de cartas que ela escrevia e que ficou com minha mãe. Eu sempre soube. Embora todos os discursos que eu ouvia sobre ela ser uma mãe ruim, ser uma vó desnaturada para os outros netos, e tantas outras coisas, eu sempre enxerguei a menina de quinze anos, que nunca teve escolha, que descobriu um pouquinho de autonomia na velhice, que possivelmente nunca pode sonhar, nunca teve um amor, que “não sabia ser mãe” e que cedo deixou de ser filha. Penso que sua história renderia um bom livro.


Eu sempre vi uma mulher diferente do que relatavam, mas como eu sempre fui “a diferente”, isso não me espanta. Eu tive uma avó maravilhosa, e tenho certeza que entre tantas coisas que aprendi na vida é o quanto somos iguais sob os olhares daqueles que nos cercavam.


Acho que o relato de hoje é sobre sobrevivência, sobre conseguir ser, apesar de tudo que nos cerca. De resistir à mudança da nossa essência por mais que o mundo nos provoque e nos machuque. De sermos quem somos e não o que os outros esperam de nós, acabei de descobrir Tete que foi isso que tu construiu em mim, te amo minha vó, até um dia.





Fabiana D'Yemoja


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