Tempo é Justiça: a nova Política Nacional de Cuidados
[...] Pela primeira vez, vejo uma lei dizer claramente ,que o que dizem ser amor, na maioria das vezes, é cuidado e não uma responsabilidade que o governo e a sociedade precisam dividir conosco.
Muitas vezes, quando me perguntam por que não fiz um curso novo ou por que pareço tão exausta, a resposta não está na falta de vontade, mas naquilo que chamamos de pobreza de tempo. É a sensação de que, antes mesmo de começar meu trabalho remunerado, eu já gastei metade da minha energia gerindo a casa, a comida e o bem-estar de quem depende de mim.
Eu vejo essa realidade estampada na pele das mulheres que me cercam. Vejo na vizinha que acorda às 4h da manhã para deixar a comida pronta para os filhos antes de ir cuidar dos filhos de outra pessoa. Vejo na amiga que precisou recusar um trabalho porque a creche fecha cedo demais. Essa sobrecarga tem cor e classe: são as mulheres negras e de baixa renda, como tantas que conheço, que carregam o peso do cuidado neste país, muitas vezes sem rede de apoio e em uma jornada múltipla que nunca termina.
Por isso, encarei com esperança o marco de dezembro de 2024, quando foi sancionada a Lei nº 15.069. Ela institui a Política Nacional de Cuidados e, para mim, isso soa como um pedido de desculpas histórico do Estado. Pela primeira vez, vejo uma lei dizer claramente, que o que dizem ser amor, na maioria das vezes, é cuidado e não uma responsabilidade que o governo e a sociedade precisam dividir conosco.
Acredito que essa política, baseada nos 5 Rs, pode mudar o meu cotidiano: Reconhecendo que o tempo que passo cuidando gera valor para o país; reduzindo meu peso diário com mais creches e lavanderias públicas; redistribuindo a tarefa para que os homens e o Estado também assumam sua parte; remunerando com dignidade quem faz disso profissão; representando nossas vozes onde as leis são feitas.
Se eu tiver mais tempo, eu não vou apenas descansar. Eu vou poder ser mais produtiva, estudar e participar da vida pública. A Lei 15.069/2024 não é apenas papel; para mim, é a promessa de que meu relógio finalmente vai trabalhar a meu favor, permitindo que eu cuide de quem amo sem precisar anular o meu próprio cuidado.
Roberta Luzzardi

Educadora e Defensora da Agroecologia,
do Feminismo Interseccional e da Escola Pública.
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