A Solidão dos Corpos Negros ― Uma Solidão Minha
[...] ninguém deveria precisar lutar tanto para ser visto, ouvido e, sobretudo, amado.
Há uma solidão que não nasce somente na ausência de pessoas, mas também na ausência de reconhecimento. Ela se instala no olhar que desvia, na escuta que não se completa, no afeto que nunca chega inteiro. A solidão dos corpos negros é, antes de tudo, uma construção social — silenciosa, persistente e profundamente enraizada.
Desde cedo, aprendi que sou diferente, mesmo não sendo um homem preto retinto, corpos negros precisam estar atentos desde muito cedo, onde sua presença é constantemente questionada. É preciso aprender a defender-se. Não se trata apenas de estar sozinho, mas de sentir-se deslocado mesmo quando se está cercado por pessoas que há qualquer momento podem te machucar. É uma experiência horrível, de ser visto sem ser enxergado, ouvido sem ser escutado, desejado sem ser amado. Há uma diferença brutal entre presença e pertencimento — e essa diferença molda trajetórias inteiras.
No campo das relações afetivas, essa solidão ganha contornos ainda mais cruéis. Corpos negros, historicamente hipersexualizados ou invisibilizados, raramente são colocados no centro do afeto legítimo. São corpos que, muitas vezes, recebem desejo, mas não cuidado; proximidade, mas não compromisso. O amor, quando chega, parece condicionado — como se precisasse sempre provar que merece existir.
Essa solidão também se manifesta na saúde mental. O acúmulo de violências, rejeições e exclusões estruturais cria um cansaço que não é apenas físico. É um desgaste emocional constante, que transforma a vida em um estado de alerta. Falar sobre dor, nesses contextos, nem sempre encontra acolhimento — porque o sofrimento negro ainda é frequentemente naturalizado.
Mas há resistência. Há encontros que curam, mesmo que brevemente. Há redes de afeto que se constroem à margem, reinventando o cuidado e o pertencimento. Há corpos negros que, apesar de tudo, insistem em amar, em criar, em existir com dignidade. E talvez seja nesse gesto — de continuar, de insistir — que reside uma forma poderosa de romper com essa solidão imposta.
Reflito sobre a solidão dos corpos negros não apenas por me reconhecer em uma ferida histórica. Mas também por assumir uma responsabilidade de transformá-la. Porque ninguém deveria precisar lutar tanto para ser visto, ouvido e, sobretudo, amado.
Talvez as pessoas não entendam, tampouco, consigam compreender o que digo, mas é preciso dizer. Eu mereço ser amado, mereço ser ouvido, mereço ser visto, mereço a felicidade, mereço viver.
Jeff Soares

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